Temporal arrasou casas e estradas em Arruda dos Vinhos e virou vidas do avesso
A passagem de sucessivas tempestades deixou o concelho de Arruda dos Vinhos num estado como as gentes da terra dizem nunca ter visto no último meio século. Há 42 pessoas desalojadas, casas completamente destruídas, apenas uma estrada totalmente transitável para entrar e sair do concelho e danos generalizados nas principais vias.
Os avisos dos meteorologistas existiam mas ninguém preparou os moradores de Arruda dos Vinhos para o que se abateu sobre o concelho na última semana. Duas tempestades, aliadas a solos situados junto a declives e já muito fragilizados pelo excesso de água, acabaram por ceder levando casas, estradas e caminhos, deixando o concelho praticamente isolado e com 42 famílias desalojadas que, em minutos, perderam o que conquistaram numa vida.
“Estava na sala e só ouvi um estrondo e a casa a abanar toda, foi uma aflição terrível. Pensei que ia morrer. Pensei mesmo”, conta a O MIRANTE Elisabete Moreira, moradora da zona do Lapão, uma das mais afectadas do concelho. Conseguiu sair de casa à pressa e esperou na rua a chegada da Protecção Civil enquanto o chão abria fendas como num tremor de terra. Foi aconselhada a não voltar a casa. Está a viver temporariamente com familiares, mas todos os seus pertences ainda estão na casa onde habitava.
Na mesma zona, os lisboetas Juliana e Ricardo Pinheiro, que ali vivem há seis anos, também viram a tempestade virar a sua vida do avesso. Ricardo Pinheiro está ligado ao ramo dos audiovisuais, é cantor e tem um projecto empresarial ligado aos palcos, som e luz para espectáculos. O armazém onde guardava o material e os camiões abateu e está inacessível.
“Tenho a vida toda em suspenso”, lamenta Ricardo Pinheiro ao nosso jornal, temendo também pela casa onde vive, situada mais abaixo na encosta, que está tombada e a afundar lentamente com o resto da encosta. “Infelizmente, como não foi decretado o estado de calamidade o banco não nos dá uma moratória e vou ter de continuar a pagar renda de uma casa em que não posso habitar. E ninguém tem perspectivas do que vai acontecer”, lamenta o morador, que ainda não contabilizou os prejuízos e vive em constante ansiedade. “Se isto não estiver resolvido até Abril não sabemos como vamos sobreviver, isto é o nosso trabalho e está tudo condicionado”, lamenta, de olhos postos no chão.
Na mesma zona, Dina Silva, militar, também perdeu a casa. No seu caso a habitação não ruiu nem abriu fendas como as restantes, mas está a inclinar em direcção à encosta e a resvalar. “Quando saímos estava uns 80 centímetros inclinada. Hoje está mais, a ficar torta e a deslizar com a encosta. Provavelmente ficará inabitável no futuro”, lamenta. Das seguradoras ainda não obteve resposta e espera que o município tenha em breve novidades para ajudar a resolver o problema.
Dez milhões
não vão chegar
Os estragos, de uma dimensão vasta, ainda não estão totalmente contabilizados mas Carlos Alves, presidente do município, admite que deverão ser muito superiores a dez milhões de euros. Quarenta e duas pessoas ficaram desalojadas depois das casas onde residiam terem sofrido danos. Há danos generalizados em praticamente todas as estradas principais do concelho e apenas uma via totalmente operacional para a entrada e saída do território, a EN 248-3 para Alverca. À data de fecho desta edição (10 de Fevereiro) a EN248 continuava cortada nos acessos a Vila Franca de Xira e Torres Vedras, a EN115 nos sentidos de Bucelas e Sobral de Monte Agraço e a EN115 no acesso a Alenquer estava a ser feito apenas numa via sem circulação de veículos pesados.
Na manhã de segunda-feira, 9 de Fevereiro, o ministro das Infraestruturas, Miguel Pinto Luz, visitou o concelho para se inteirar dos danos provocados pelas tempestades Leonardo e Marta. O presidente do município, Carlos Alves, aproveitou para reforçar junto do governante a necessidade urgente de ser decretado o estado de calamidade no concelho, mas ficou sem resposta.
Face à falta de alternativas, também pediu a isenção de portagens na A10 no troço de Arruda dos Vinhos, bem como o reforço da articulação com a Infraestruturas de Portugal para que sejam implementadas soluções imediatas e estruturais para as vias principais, em última instância com o apoio do Exército. Carlos Alves exigiu também uma articulação directa e mais eficaz com o Laboratório Nacional de Engenharia Civil e o Instituto da Habitação e Regeneração Urbana, de forma a garantir estudos técnicos e apoios adequados às famílias afectadas.


