Cheias cada vez mais frequentes exigem mudança na forma como se cuida dos rios
Especialistas alertam que não basta reagir às inundações: é urgente agir a montante, devolvendo espaço aos rios, recuperando margens naturais e travando décadas de desordenamento do território.
Os episódios de cheias intensas que, diga-se, não são assim tão frequentes, acaba sempre por reacender o debate sobre a prevenção e a adaptação às alterações climáticas. Hidrólogos, engenheiros do ambiente e especialistas em ordenamento do território são claros: não existe uma solução única, mas um conjunto de medidas estruturais que precisam de ser aplicadas de forma consistente e a longo prazo.
Entre as soluções mais apontadas está a reflorestação das margens dos rios com vegetação ripícola autóctone. Árvores e arbustos ao longo das linhas de água funcionam como travões naturais à velocidade da água, estabilizam os solos, reduzem a erosão e aumentam a capacidade de infiltração. Outro ponto crítico é a devolução de espaço aos rios, permitindo que estes extravasem para zonas naturalmente inundáveis sem causar prejuízos graves. Durante décadas, a construção em leitos de cheia, a rectificação de cursos de água e a impermeabilização dos solos urbanos aumentaram drasticamente o risco de inundações. Especialistas defendem que é essencial rever planos directores municipais, travar novas construções em áreas de risco e, sempre que possível, relocalizar infraestruturas vulneráveis.
A gestão florestal nas bacias hidrográficas é igualmente determinante. A monocultura intensiva, a ausência de limpeza dos terrenos e a perda de mosaicos agrícolas tradicionais reduzem a capacidade do solo de reter água. Florestas diversificadas, com espécies adaptadas ao território, ajudam a regular o escoamento e a reduzir a rapidez com que a água chega aos rios. Também a renaturalização dos cursos de água surge como prioridade. A remoção de obstáculos artificiais obsoletos, como tem sido realizado pelo GEOTA no Alviela, por exemplo, a recuperação de meandros e a reabilitação de zonas húmidas permitem armazenar temporariamente grandes volumes de água, funcionando como verdadeiras “esponjas naturais” durante períodos de chuva extrema.


