Cheias são uma calamidade mas também motivo de curiosidade
Há quem nunca tenha visto uma cheia e há quem já não se lembrava de cheias de grande dimensão como em 1989, 1996 e 2013, ou das maiores em 1979. Por isso, as cheias deste ano despertam a curiosidade e levam muita gente a ver a imensidão de água que cobre estradas e campos.
Do alto da torre das Portas do Sol, em Santarém, Jorge Paredes aponta com o chapéu de chuva para a imensidão de água que tapa a Estrada Nacional 114 para Almeirim e esconde as divisões dos terrenos agrícolas. Com pressa para ir a uma consulta no médico foi a correr ver como estava a cheia porque há muitos anos que não via uma coisa assim. Antes de começar a descer os degraus da muralha, ainda comentou que as cheias também são uma atracção turística e que até o primeiro ministro, Luís Montenegro tinha estado no mesmo sítio a ver o cenário que só é estranho para quem é jovem. O ex-empresário de camionagem veio de Foz Côa para Santarém, há 50 anos, fazer transporte de cerveja da antiga Clock (Unicer)
Junto das estradas, na Tapada ou nas Caneiras, há um corrupio de gente a ver o nível da água na estrada, fazem-se apostas de quantos centímetros subiu a água. Por aqui quem mais circula é quem é da zona, enquanto as Portas do Sol é o ponto de atracção de quem vive longe da zona ribeirinha ou nunca viu este fenómeno. Lurdes Asseiro aproxima-se de panamá a proteger o cabelo para fazer umas imagens para enviar à família, que está em Bragança e que lhes faz confusão como é que o Tejo galga as margens e inunda vastas extensões, isolando localidades como as Caneiras ou o Reguengo do Alviela. A antiga presidente do Instituto Politécnico de Santarém confessa logo que não tem grande habilidade para fazer vídeos, mas vai tentar captar as melhores imagens da “varanda” sobre o Tejo.
Lurdes Asseiro confessa que gosta de ver as cheias que têm algo de espectacularidade. Mas ressalva que logo de seguida arrepende-se de ter esse pensamento porque há pessoas que podem estar prejudicadas com a situação, embora as cheias sejam um fenómeno a que os mais velhos estão habituados nestas zonas. Enquanto na Tapada (Almeirim) alguns populares ajudam a conter a água que passava por uma manilha porque alguém se esqueceu de a tapar, Inês Rodrigues mostrava ao filho o pequeno lugar que passou a ter apenas um acesso pela Ponte D. Luís, com as ligações a Alpiarça e Almeirim cortadas.
Inês e o marido estão em Santarém há duas décadas e realçam que as cheias provocam uma certa curiosidade, tal como concorda Leonila Gomes, que há quatro anos saiu de Angola para Santarém, e que repete várias vezes estar surpreendida. A angolana que nunca tinha visto uma cheia está ao telemóvel a fazer uma videochamada com a cunhada, mostrando as cheias nos campos de Alpiarça, Almeirim e Santarém. Leonila foi confirmar com os seus olhos o que tinha visto na televisão e realça que ao vivo o cenário é ainda mais incrível e gigantesco.
Tirando algumas pessoas que tiveram de ser deslocadas da Ribeira de Santarém, Reguengo do Alviela e Caneiras, e alguns incómodos na circulação, as cheias nesta zona ribeirinha do Tejo não provocaram problemas de maior e alguns agricultores até dizem que são benéficas para os campos.


