Entre o lucro rápido e a floresta perdida: eucalipto ocupa mais de metade da área florestal
Em vários concelhos da região, sobretudo no Médio Tejo, o eucalipto já ocupa metade da área florestal, transformando a paisagem, aumentando o risco de incêndio e levantando dúvidas sobre o futuro do território. Os números mostram que a floresta da região ribatejana está a mudar e não é para melhor.
A floresta de eucalipto tem vindo a ganhar peso em vários concelhos do Médio Tejo nas últimas duas décadas, tornando-se mesmo a espécie dominante em alguns territórios, enquanto na Lezíria do Tejo o crescimento foi mais contido e, nalguns casos, praticamente inexistente. Os dados do Inventário Florestal Nacional (IFN), comparando os anos de 1995 e 2015, mostram duas realidades bem distintas na região do Vale do Tejo.
No Médio Tejo, o eucalipto registou um crescimento estrutural, passando a ocupar uma fatia significativa — e em alguns casos maioritária — da área florestal. Em Mação, mais de 52% da floresta era já composta por eucalipto em 2015, confirmando um percurso de forte expansão ao longo de 20 anos. Abrantes apresenta um cenário semelhante, com cerca de 47% da área florestal ocupada por esta espécie, enquanto Sardoal ronda os 46%. Em Constância, o eucalipto representa aproximadamente 43%, e em Ferreira do Zêzere cerca de 40% da floresta.
Também Tomar, Alcanena, Torres Novas e Vila Nova da Barquinha registam valores entre os 30% e os 36%, consolidando o Médio Tejo como uma das sub-regiões do país com maior dependência do eucalipto. Apenas Ourém apresenta um crescimento mais moderado, com a espécie a representar cerca de 29% da floresta, mantendo uma maior diversidade de povoamentos.
Uma realidade bem diferente verifica-se na Lezíria do Tejo, onde o eucalipto continua longe de assumir um papel dominante. Em concelhos como Coruche e Chamusca, fortemente marcados pelo montado de sobro, o eucalipto representa menos de 10% da área florestal, mantendo-se praticamente estável entre 1995 e 2015. Em Almeirim, Salvaterra de Magos e Golegã, os valores situam-se entre os 15% e os 19%, sem alterações significativas ao longo do período analisado.
Ainda assim há excepções. Benavente, Santarém e Azambuja apresentam percentagens mais elevadas, entre os 27% e os 31%, refletindo um crescimento moderado do eucalipto, sobretudo a partir dos anos 2000. Em Santarém, por exemplo, a percentagem de eucalipto na floresta aumentou cerca de cinco pontos percentuais em 20 anos, aproximando-se hoje dos 30%.
Os números revelam uma clivagem clara entre duas formas de ocupação do território. Enquanto a Lezíria do Tejo mantém uma floresta mais diversificada e integrada com a agricultura, o Médio Tejo assistiu a uma transformação profunda, impulsionada pelo abandono agrícola, pela rentabilidade da fileira da celulose e pela ausência de alternativas económicas viáveis em muitos territórios de baixa densidade.
Outras espécies perdem terreno em vários concelhos
Apesar do crescimento do eucalipto, a floresta da Lezíria do Tejo e do Médio Tejo continua a ser marcada por outras espécies com forte relevância ecológica e económica. Os dados do Inventário Florestal Nacional mostram, no entanto, que o seu peso relativo tem diminuído em vários concelhos ao longo das últimas duas décadas.
Na Lezíria do Tejo, o sobreiro mantém-se como a espécie dominante, sobretudo em Coruche, Chamusca e Salvaterra de Magos, onde o montado continua a estruturar a paisagem e a economia local ligada à cortiça. Nestes concelhos, o sobreiro representa uma fatia significativa da área florestal e tem funcionado como travão à expansão do eucalipto. O pinheiro-manso e o pinheiro-bravo mantêm expressão relevante em vários concelhos das duas sub-regiões, embora com tendência de estagnação ou ligeiro recuo, em parte devido a incêndios, pragas e menor rentabilidade económica. Espécies como a azinheira e outras folhosas autóctones continuam presentes, mas de forma dispersa e pouco estruturante, com maior expressão apenas em áreas de relevo mais acidentado ou de menor aptidão agrícola.
À margem/opinião
Quando o eucalipto é uma escolha perigosa
Durante anos fingiu-se que o eucalipto era apenas mais uma árvore no panorama florestal. Os números mostram que não é. Em vários concelhos do Médio Tejo, o eucalipto já ocupa perto, ou mais, de metade da floresta. Em Mação, Abrantes ou Sardoal, falar de floresta é, na prática, falar de eucalipto. Isto não é diversidade, é dependência. O problema não é a existência do eucalipto. É a sua hegemonia. Uma floresta dominada por uma só espécie é mais frágil, arde mais depressa, recupera pior e empobrece o território. Onde antes havia montado, pinhal e matos que travavam o fogo, há hoje manchas contínuas de produção rápida, geridas ao ritmo do mercado e não da paisagem. A expansão do eucalipto é também o reflexo de um abandono político. Sem apoio à agricultura, sem incentivos à gestão activa e diversificada, o território empobrece. É, sem dúvida, uma escolha perigosa.


