“Saímos de casa com o que coube nos braços”
Desalojados das cheias encontraram abrigo no Pavilhão Desportivo de Santarém.
A subida das águas na zona ribeirinha de Santarém obrigou à evacuação preventiva de dezenas de pessoas, que foram acolhidas no Pavilhão Desportivo Municipal, transformado em centro de abrigo de emergência. Alimentação, apoio médico, água quente para banhos e produtos de higiene foram assegurados num espaço onde o medo, a incerteza e a gratidão convivem lado a lado. O MIRANTE falou com três desalojados para perceber como estão a viver este momento e como avaliam a resposta das entidades públicas.
José Augusto, reformado de 75 anos, conhece bem o comportamento do rio. Vive há décadas na zona ribeirinha e diz que aprendeu a preparar-se para o pior. Quando saiu de casa, ainda não havia água no interior, mas deixou tudo pronto: bens no segundo andar, o essencial protegido e parte dos pertences já em local seguro. Encara a situação com naturalidade, mas admite estar surpreendido com a rapidez da resposta. “Pensei que houvesse pequenas falhas, mas até estou admirado… quase em cima do joelho, como é que conseguiram pôr isto de pé?”, afirma, referindo-se à organização do centro de acolhimento.
Para Tamires Silva, de 38 anos, moradora na Tapada, o impacto é mais emocional. Mãe de crianças pequenas, fala de um momento de grande vulnerabilidade e preocupação com a casa que deixou para trás. Mantém contacto com uma vizinha que permaneceu na zona para acompanhar a evolução da situação, mas não tem dúvidas sobre a decisão tomada. “O mais importante é a vida”, sublinha. Apesar de não poder ir trabalhar, destaca a compreensão da entidade patronal e diz sentir-se amparada pelo apoio recebido. “Senti-me em casa com o carinho que me deram”, confessa.
Camila Barbosa, estudante de 20 anos da Ribeira de Santarém, nunca imaginou que a água lhe entrasse em casa. Na quarta-feira parecia ter recuado, mas no dia seguinte encontrou-a já à porta. Teve apenas tempo de salvar documentos, alguma roupa e os bens essenciais antes de ser retirada de barco pelos bombeiros. Recorda o episódio com serenidade, mas admite o stress vivido. Já no pavilhão, destaca a dimensão humana da resposta. “Se as pessoas não fossem capazes, a estrutura não faria diferença”, afirma, agradecendo o apoio dos voluntários, bombeiros e funcionários públicos.
Entre colchões improvisados e rotinas suspensas, os desalojados enfrentam a incerteza com resiliência. No pavilhão, mais do que um tecto provisório, encontraram organização, solidariedade e um sinal de que, em tempo de cheias, ninguém fica sozinho.


