Transportes no distrito de Santarém: um mapa de desigualdades sobre rodas
No distrito de Santarém, o acesso ao transporte público depende, em grande medida, do código postal. Os números dos Censos de 2021 revelam um território marcado por fortes desigualdades na mobilidade, onde viver num concelho ou noutro pode significar a diferença entre ter uma alternativa ao automóvel ou depender quase exclusivamente dele.
No distrito de Santarém o acesso ao transporte público é tudo menos homogéneo. Os números dos Censos de 2021 mostram um território onde a mobilidade colectiva é excepção e não regra, e onde a possibilidade de viver sem automóvel depende do concelho onde se reside. Entre os 21 concelhos do distrito, a percentagem de população empregada que utiliza transporte público nas deslocações para o trabalho varia entre os 0,8% e os 9,9%, revelando um fosso profundo no acesso a um direito básico.
O Entroncamento surge como o concelho onde o transporte público tem maior peso, com 9,9% dos trabalhadores a utilizarem meios colectivos, um valor explicado pela centralidade ferroviária e pela ligação directa a outros territórios. Mesmo assim, o dado esconde uma penalização clara: quem se desloca em transporte colectivo demora, em média, 56,9 minutos, mais do triplo do tempo gasto por quem utiliza transporte individual. O Cartaxo surge logo a seguir, com 7,8% de utilização de transporte público, mas também aqui a diferença de tempo é significativa, com deslocações colectivas a ultrapassarem os 49 minutos em média.
Santarém, capital de distrito, apresenta um valor de 6% de utilização de transporte público, semelhante ao de Vila Nova da Barquinha e Benavente. São concelhos onde existe alguma oferta estruturada, mas longe de garantir uma alternativa eficaz ao automóvel. Em Santarém, quem usa transporte colectivo demora em média mais de 40 minutos a chegar ao trabalho, mais do dobro do tempo registado nas deslocações individuais. Em Benavente, essa média sobe para quase 44 minutos.
A meio da tabela surgem concelhos como Tomar, Torres Novas e Abrantes, onde menos de 5% da população empregada recorre ao transporte público. Nestes territórios, a utilização residual não resulta apenas de opção individual, mas da ausência de soluções fiáveis e compatíveis com horários laborais. Ainda assim, os tempos médios de deslocação em transporte colectivo rondam os 40 minutos. Mais abaixo estão Almeirim, Rio Maior, Salvaterra de Magos, Coruche e Chamusca, todos com valores entre os 2,9% e os 3,5% de utilização de transporte público. Aqui, o automóvel é claramente dominante e o transporte colectivo funciona como recurso de última instância.
Nos últimos lugares surgem concelhos como Golegã, Alpiarça, Ourém, Ferreira do Zêzere, Alcanena, Sardoal e Mação, onde o uso de transporte público não chega sequer a 2% da população empregada. Em Mação, apenas 0,8% dos trabalhadores utilizam transporte colectivo.
O retrato destes números é claro: no distrito de Santarém, o transporte público não funciona como factor de coesão territorial, mas como marcador de desigualdade. Onde existe alguma oferta, ela é lenta; onde é mais rápida, quase não existe. A consequência é um território dividido entre quem pode garantir mobilidade própria e quem fica limitado nas oportunidades de trabalho, acesso à saúde ou frequência escolar.
À margem/opinião
No distrito, a desigualdade começa no transporte
No distrito de Santarém, falar de igualdade de oportunidades sem falar de transportes públicos é um exercício de hipocrisia. Os números são claros: em muitos concelhos, menos de 2% da população consegue usar transporte colectivo para ir trabalhar. Não porque não queira, mas porque não existe uma alternativa real ao automóvel. Quando o transporte público é escasso, lento ou imprevisível, deixa de ser um serviço. Quem não tem carro perde tempo, oportunidades de emprego, acesso a cuidados de saúde e qualidade de vida. A mobilidade transforma-se num privilégio e não num direito.
Sem transportes não há coesão territorial, não há combate à desertificação e não há justiça social. Um território onde o autocarro não passa é um território onde o futuro também não chega. Investir em transportes públicos não é um luxo nem uma obsessão ideológica. É uma condição básica para garantir que o código postal não continue a decidir quem pode avançar e quem fica para trás.


