Sociedade | 18-02-2026 10:00
O vento levou as telhas, mas não a esperança: há idosos em Ourém a viver na escuridão
No Casal dos Bernardos, em Ourém, a tempestade passou nas ruas, mas continua dentro das casas. Há quem espere por telhas, por electricidade e por uma noite inteira sem frio.
Na freguesia do Casal dos Bernardos, no concelho de Ourém, as marcas da depressão Kristin continuam à vista. E não são apenas árvores tombadas ou eucaliptais vergados pelo vento. São telhados rasgados, cozinhas inundadas e noites passadas às escuras. Manuel Lopes, 81 anos, pedreiro toda a vida, olha para o telhado da sua casa de rés-do-chão e primeiro andar como quem olha para uma batalha que sabe travar, mas já não pode. “Eu sei fazer aquilo”, diz, apontando para as mais de 150 telhas que o vento arrancou. “Mas o meu corpo já não deixa.”
Sobreviveu a três AVC e a um enfarte. Sonhava chegar aos 90 com tranquilidade. Em vez disso, passa os dias a remendar a vedação enquanto espera por um empreiteiro que não aparece. “Ando à procura, mas isto está mau”, lamenta, com a ironia amarga de quem ainda arrisca: “Se calhar deviam pôr a internet a fazer as casas”. Enquanto Manuel espera por telhas e mão-de-obra, Emília Marques, 80 anos, espera por luz e por descanso. Acordou às cinco da manhã com o estrondo de troncos de eucalipto a baterem no telhado e na chaminé. “Voou tudo por cima da minha casa”, recorda. O remendo possível não impediu as infiltrações. Na cozinha, há 11 baldes das uvas, três alguidares e uma arrastadeira alinhados para aparar a água que continua a cair. Pelo meio, um susto maior: o filho caiu do telhado ao tentar retirar a chaminé danificada e abriu dois golpes na cabeça. Mas o que mais pesa a Emília é a escuridão. Ainda depende de uma ligação improvisada por fio à casa da filha para manter a arca ligada. Não chega para aquecer a casa. O aquecedor dispara o quadro. Não pode fazer lume. E o frio instala-se. “No domingo gelaram-me os pés. Aqueci uma borracha de água e fui para a cama às sete. São noites muito dolorosas. Sem televisão, operada ao joelho, com duas hérnias… as noites são muito grandes”, confessa. Ao lado, Tico, o gato malhado, não se afasta. “Anda com medo e um pouco ourado”, diz, acariciando-o. Talvez seja o único conforto nestes dias húmidos e longos.
O estado de calamidade já terminou. Mas no Casal dos Bernardos, para Manuel e Emília, a tempestade ainda não acabou. Falta-lhes o essencial: um tecto seguro, luz em casa e a paz que a idade devia trazer.
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