Sociedade | 18-02-2026 07:00

Rio Tejo sobe aos 33 metros e obriga Abrantes a repensar “cota 35”

Rio Tejo sobe aos 33 metros e obriga Abrantes a repensar “cota 35”

Cheias reacendem polémica antiga e presidente da câmara admite rever plano: “Temos de proteger as pessoas sem travar o desenvolvimento”, afirma Manuel Valamatos.

O rio Tejo voltou a impor respeito em Abrantes. O caudal atingiu os 33 metros no Rossio ao Sul do Tejo, ficou a dois da temida “cota 35” e reacendeu um debate que parecia adormecido: até que ponto o Plano de Gestão de Risco de Inundações (PGRI) protege as populações sem bloquear o desenvolvimento das zonas ribeirinhas. O alerta vermelho do Plano de Emergência para Cheias no Tejo foi accionado a 5 de Fevereiro, na sequência das descargas das barragens em Espanha. Cerca de 12 horas depois, os caudais faziam-se sentir em Portugal, com picos de 8.300 metros cúbicos por segundo em Abrantes e 9.000 m³/s em Almourol.
Apesar de não ter sido atingida a “cota 35”, referência estabelecida no PGRI para novas construções em zonas inundáveis , o episódio foi suficiente para provocar uma inflexão no discurso político. O presidente da Câmara de Abrantes, Manuel Valamatos, que em 2024 considerava as restrições “exageradas” e “castradoras do desenvolvimento”, reconhece agora que o plano “é importante para a protecção e segurança das pessoas” e deve ser analisado à luz da realidade actual. “Se calhar até achava que o plano quase já não fazia falta”, admitiu, sublinhando que a segunda maior cheia do século XXI deixa “um desafio de futuro em termos de planeamento muito significativo”.
O autarca defende que o plano não deve ser revogado, mas tecnicamente revisto. A principal crítica incide sobre o artigo 67.º do PGRI, que só permite obras de construção, reconstrução ou ampliação se o piso estiver acima da cota de cheia prevista. Para Manuel Valamatos, a norma não distingue novas construções da reabilitação do edificado existente, impedindo a recuperação de casas nas zonas ribeirinhas. “Tal como está, casas existentes não podem ser reabilitadas, o que é absolutamente castrador”, afirmou, defendendo uma diferenciação clara entre construção nova e reabilitação urbana. Ao mesmo tempo, sustenta que o planeamento deve acompanhar as margens já requalificadas e melhorar o escoamento das ribeiras, garantindo segurança sem hipotecar o desenvolvimento económico.
O presidente da câmara faz ainda questão de sublinhar que o cenário ficou “muito longe do histórico das últimas grandes cheias” e que seriam necessários mais dois a três metros de água para atingir a cota 35. Manuel Valamatos elogiou também a coordenação da Agência Portuguesa do Ambiente e o trabalho conjunto com Espanha na gestão das barragens. “A APA fez um trabalho extraordinário. Sem essa gestão e os sistemas actuais de previsão meteorológica, a cheia poderia ter sido ainda mais grave”, afirmou. Com o Tejo de novo no leito, fica a marca de mais uma cheia e a certeza de que o debate sobre a “cota 35” voltou à corrente principal da política local.

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