Sociedade | 19-02-2026 18:00

Cocaína atinge máximo da década e quase 39 mil estão em tratamento por dependências

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Apesar de a tendência global dos consumos se manter em descida, os indicadores revelam mudanças no perfil das dependências em Portugal, com a cocaína a ganhar terreno e a mortalidade associada ao álcool a inverter a tendência de queda.

Quase 39 mil pessoas estiveram em tratamento por dependência de droga e álcool em 2024, num ano em que a cocaína atingiu o peso mais elevado da última década entre os consumidores acompanhados, segundo dados hoje divulgados pelo Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências (ICAD).
De acordo com o Sumário Executivo dos Relatórios Anuais para 2024, apresentado no Auditório Almeida Santos, na Assembleia da República, “embora a heroína continue a ser a droga principal mais prevalente no total de utentes em ambulatório, a sua importância tem vindo a diminuir”, ao passo que a cocaína regista um crescimento sustentado, “atingindo em 2024 os valores mais altos dos últimos dez anos”.
As “Estimativas do Consumo Problemático/de Alto Risco de Drogas de 2022” já apontavam para um acréscimo do número de consumidores recentes de cocaína entre 2015 e 2022, contrariando a tendência observada nos opiáceos e nas drogas injectáveis. Em 2022, 10,7 por mil habitantes entre os 15 e os 64 anos eram consumidores recentes de cocaína.
No âmbito do tratamento da dependência de drogas, o ICAD acompanhava em 2024 um total de 24.184 utentes em ambulatório na rede pública. Dos 3.714 que iniciaram tratamento no ano passado, 1.797 eram readmitidos e 1.917 novos utentes. O número de entradas aumentou pelo quarto ano consecutivo (+3%), atingindo valores que não se registavam desde 2015.
Quanto aos internamentos, estavam registados 587 utentes em Unidades de Desabituação e 1.609 em Comunidades Terapêuticas.
O relatório sublinha ainda a manutenção da descida do consumo por via injectável e da partilha de seringas. As doenças infecciosas associadas, como o VIH e as hepatites B e C, mantêm padrões estáveis face ao ano anterior. Ainda assim, o ICAD alerta que, após a descida acentuada das novas infecções por VIH até 2011, se verifica um abrandamento nesse ritmo, com “evoluções díspares” sobretudo entre consumidores de drogas injectáveis.
No que respeita à mortalidade associada ao consumo de droga, dados do Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses (INMLCF) registaram 438 óbitos em 2024, dos quais 66 (15%) por overdose. Embora as overdoses tenham diminuído 18% face a 2023, os valores dos últimos quatro anos são os mais elevados desde 2009.
Também as contra-ordenações associadas ao consumo recuaram 29% em relação a 2023, o que o ICAD associa à clarificação do regime sancionatório relativo à detenção de droga para consumo, independentemente da quantidade. A maioria dos processos esteve relacionada com posse de canábis (81%) e envolveu, em 91% dos casos, pessoas não toxicodependentes.
No que toca ao álcool, 14.762 utentes estiveram em tratamento em ambulatório na rede pública. Dos 5.250 que iniciaram acompanhamento em 2024, 1.802 eram readmitidos e 3.448 novos utentes.
Os internamentos hospitalares com diagnóstico principal atribuível ao consumo de álcool diminuíram 8% face a 2023, fixando-se em 3.824. Contudo, quando considerados os diagnósticos secundários, o número ascende a 40.899 episódios.
Segundo o INMLCF, foram atribuídos ao consumo de álcool 883 óbitos em 2024, entre acidentes, mortes naturais, suicídios e intoxicações alcoólicas. Em contraciclo com os dois anos anteriores, as mortes por intoxicação alcoólica aumentaram 74%, atingindo o valor mais elevado dos últimos três anos.
No domínio criminal, registaram-se 18.548 crimes de condução sob o efeito do álcool, menos 23% do que em 2023. No último dia de 2024 encontravam-se 145 pessoas presas por este crime, menos 10% face ao ano anterior.
Ainda assim, em 2023 – ano mais recente com dados das forças de segurança –, foram contabilizadas 33.356 participações de violência doméstica no âmbito da criminalidade potencialmente relacionada com o consumo de álcool, o valor mais elevado da última década, sublinha o relatório do ICAD.

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