Ponte da Chamusca: entre remendos e camiões, continua à espera de solução definitiva
Reabertura da ponte da Chamusca devolveu o trânsito e algum alívio a quem depende diariamente daquela ligação, mas não apagou as fissuras que continuam a marcar o pavimento, nem as dúvidas que se acumulam há anos.
Depois de duas vezes encerrada nas últimas semanas, por motivos diferentes, a circulação foi retomada na Ponte Joaquim João Isidro dos Reis, na Estrada Nacional 243, mas o alívio de quem atravessa diariamente o Tejo não apaga a preocupação que se arrasta há anos. A reabertura da conhecida ponte da Chamusca devolve alguma normalidade à ligação entre Golegã e Chamusca, mas está longe de encerrar a longa novela de uma infraestrutura marcada por fissuras, remendos e promessas sucessivamente adiadas.
O mais recente episódio, a interdição motivada por fendas no pavimento e instabilidade num talude de acesso, voltou a expor fragilidades antigas. Durante as várias horas de encerramento, a Infraestruturas de Portugal avançou com medidas de mitigação: o semáforo que regula a circulação alternada foi deslocalizado algumas dezenas de metros e parte de uma das faixas ficou encerrada. O objectivo é evitar que viaturas permaneçam imobilizadas sobre a crista do talude onde foram detectadas fissuras, reduzindo a carga numa das zonas mais sensíveis do aterro. São soluções técnicas para conter o risco imediato. Mas quem ali passa todos os dias sabe que o problema é mais profundo.
O que mais inquieta autarcas e população é que os sinais de alerta não são recentes. A Câmara da Golegã informou a Infraestruturas de Portugal, em Março de 2025, da existência de fissuras e da instabilidade agora apontadas como causa para a interdição. O aviso antecedeu o agravamento da situação, levantando questões sobre a celeridade da resposta e a articulação entre entidades. Entre relatórios técnicos e decisões administrativas, o tempo foi passando.
A degradação do pavimento é visível a olho nu. Buracos, abatimentos e sucessivos remendos tornam a travessia irregular e perigosa, aumentando o risco de acidentes e os danos nas viaturas. Nas bermas e passeios, a vegetação cresce sem controlo, reforçando a sensação de abandono numa das principais ligações rodoviárias da região. Há cerca de dois anos foram feitas intervenções de pavimentação, mas a durabilidade das obras ficou aquém do esperado, sobretudo face ao volume de tráfego que a ponte suporta.
E é precisamente o tráfego um dos nós centrais desta história de décadas. A ponte recebe diariamente um fluxo muito superior ao desejável, com especial incidência de veículos pesados. Muitos utilizam esta travessia como eixo estratégico de ligação, nomeadamente no acesso ao Eco Parque do Relvão. O excesso de camiões, aliado à inexistência de alternativas viárias eficazes, acelera o desgaste da estrutura e transforma cada passagem num exercício de paciência.
Ao longo dos anos, a situação da ponte tem sido repetidamente discutida em reuniões públicas, sessões camarárias e campanhas eleitorais. Prometeram-se estudos, anunciaram-se intenções e multiplicaram-se visitas institucionais. Mas, no terreno, o cenário pouco mudou. A ponte tornou-se símbolo de uma infraestrutura essencial que não acompanha as exigências do tráfego actual e que permanece presa entre diagnósticos técnicos e decisões políticas. Para quem depende daquela travessia para trabalhar, estudar ou aceder a serviços, a realidade é simples: constrangimentos constantes, circulação alternada, receio de novos encerramentos e a sensação de que o problema se arrasta sem solução definitiva à vista.
A reabertura da travessia devolve o trânsito, mas não devolve a confiança. Enquanto não avançar uma intervenção estrutural, seja uma reabilitação profunda da ponte, seja a criação de uma alternativa rodoviária capaz de retirar o peso dos camiões daquela travessia, a ponte da Chamusca continuará suspensa entre o peso do tráfego e o peso das decisões adiadas.
Manuel Valamatos exige fim das promessas: IC9 e novas pontes são urgência absoluta
Cheias expõem fragilidades antigas e presidente da CIM não poupa críticas: “Em Lisboa ou no Porto já estava resolvido”.
O presidente da Comunidade Intermunicipal (CIM) do Médio Tejo voltou a colocar o dedo na ferida: a região não pode continuar à espera da conclusão do IC9 nem de soluções para as pontes da Chamusca e de Constância. Para Manuel Jorge Valamatos, a sucessão de cheias e constrangimentos na mobilidade veio apenas confirmar o que há muito é reivindicado, a urgência de investir em acessibilidades para garantir coesão territorial e segurança.
Em declarações à Lusa, o também presidente da Câmara de Abrantes defendeu que “não precisamos só da conclusão do IC9, precisamos da conclusão do IC9 e de um conjunto de outras infraestruturas”, sublinhando que a região continua vulnerável por falta de alternativas viárias eficazes. A situação das travessias sobre o Tejo é, para o autarca, um dos exemplos mais evidentes dessa fragilidade. Na Chamusca, a ponte apresenta sinais de degradação que obrigam à circulação alternada por razões de segurança. Já em Constância, a travessia está interditada a veículos pesados, igualmente por motivos de segurança, condicionando o transporte de mercadorias e afectando a dinâmica económica local.
Valamatos considera que os recentes episódios de cheias devem servir de alerta definitivo para o Governo. “Neste contexto que estamos a viver, aquilo que aprendemos é que, mais uma vez, se torna urgente a conclusão do IC9”, afirmou, dizendo querer acreditar que o executivo compreenda “de uma vez por todas” a importância estratégica da via, sobretudo para as zonas industriais da região, com destaque para o Tramagal. Para o presidente da CIM do Médio Tejo, não se trata apenas de uma estrada, mas de uma questão de igualdade territorial. A requalificação ou construção de novas pontes na Chamusca e em Constância, bem como a melhoria global da rede viária, são vistas como peças-chave para garantir desenvolvimento económico, fixação de população e maior resiliência perante fenómenos extremos.
“Esta região merece uma atenção que já deveria ter acontecido há muitos anos”, frisou, numa crítica directa ao que considera ser um tratamento desigual face às áreas metropolitanas. “Em qualquer sítio em Lisboa ou em qualquer sítio do Porto, estas situações já estavam resolvidas”, reforçou.
À margem/opinião
Ponte da Chamusca: remendos não chegam
A reabertura da ponte da Chamusca podia ser apenas uma boa notícia. Mas não é. É, sobretudo, mais um capítulo de uma história repetida: encerra, intervém-se à pressa, reabre-se com condicionamentos e promete-se estudar soluções mais profundas. E assim se vai adiando o essencial. A Ponte Joaquim João Isidro dos Reis não é uma estrada secundária esquecida num mapa. É um eixo vital entre Golegã e Chamusca, suportando diariamente centenas de veículos, muitos deles pesados com destino ao Eco Parque do Relvão. Cada camião que atravessa aquela estrutura transporta não só mercadorias, mas também o peso de uma decisão política que tarda. As fissuras no pavimento e a instabilidade no talude não surgiram de um dia para o outro. Houve alertas, houve comunicações às entidades competentes, houve sinais evidentes de desgaste. A ponte da Chamusca já não é só uma ponte. Tornou-se um símbolo de um problema maior: infraestruturas essenciais que envelhecem mais depressa do que as decisões que as deveriam proteger.


