Azambuja: dezenas de animais mortos, deixados para trás nas cheias
Responsáveis por talhões de hortas sociais deixaram animais de espécies pecuárias e domésticas entregues à sua sorte durante as cheias. Dezenas de cadáveres estão a ser recolhidos, com a veterinária municipal a admitir “falhas”. Autoridades tentam identificar proprietários e caso segue para o Ministério Público.
No concelho de Azambuja centenas de animais domésticos e de espécies de pecuária em risco de vida foram e continuam a ser alimentados e resgatados em locais isolados pelas cheias. Mas para alguns a ajuda chegou tarde demais. Segundo o IRA - Intervenção e Resgate Animal, accionado para o resgate de emergência, “dezenas de animais mortos por afogamento” foram “deixados para trás no município de Azambuja”.
No âmbito da Operação Maré Cheia, o IRA relata o “resgate de animais fechados em construções precárias inundadas que se encontram em risco de afogamento” e casos em que, devido ao caudal das águas, os animais encontravam-se isolados há vários dias, tendo por isso morrido por falta de alimento. “Estamos a encontrar dezenas de animais mortos que não foram atempadamente evacuados, na sua maioria de espécies de pecuária”, refere a organização não governamental.
A veterinária municipal de Azambuja, Marisa Santos, reconhece a O MIRANTE que “alguma coisa falhou” e que é preciso “tirar as devidas ilações e consequências”, tendo em conta a mortandade e a quantidade de animais que foram deixados para trás em talhões afectos às hortas sociais, na freguesia de Azambuja. “As pessoas que tinham as hortas mais em risco retiraram os animais e puseram-nos a salvo. Mas, infelizmente, o oposto também aconteceu. Fiquei bastante desiludida e triste. Tenho de garantir o bem-estar animal e sinto que falhei neste aspecto, por ter acreditado nas pessoas e não ter batido a cada porta, presencialmente”, diz em declarações ao nosso jornal, explicando que as pessoas foram avisadas pela protecção civil, por comunicados e algumas telefonicamente, do perigo que as inundações representavam para os animais.
A Guarda Nacional Republicana (GNR), confirma a O MIRANTE que tem acompanhado as operações, que prosseguem à medida que a descida da água vai permitindo, tendo levantado autos “para identificação dos proprietários dos animais” que irão seguir para o Ministério Público. “A investigação irá certamente aferir proprietários”, sublinha a veterinária. Alguns serão, eventualmente, identificáveis pelo local onde os animais foram recolhidos, vivos ou mortos, uma vez que a Câmara de Azambuja dispõe de informação sobre a quem foi atribuída cada parcela de horta social. Noutros casos, como os de cães encontrados sem vida, será difícil provar a quem pertencem porque, segundo revela, não tinham chip. “Agora não são de ninguém, dirão que apareceram ali por acaso”, critica.
As operações de resgate, explica Marisa Santos, não tiveram início com o IRA, pois já na sexta-feira, 13 de Fevereiro, os serviços municipais tinham retirado o primeiro cão com vida e, no sábado, mais três vivos e um já cadáver. “Temos recolhido de tudo. Cadáveres de cães, gatos, galinhas, coelhos, codornizes, pombos, um cabrito. Continuam trabalhos à espera que a água baixe mais e nos permita visualizar mais pontos”, diz. E lamenta que o mais provável é que já só consigam recuperar animais sem vida. Noutros casos, em zonas inundadas onde se sabe que existem animais assilvestrados, os serviços do município, em articulação com a GNR, continuam a “garantir alimentação”, nomeadamente em colónias de gatos onde os cuidadores não conseguem chegar devido às cheias. Nas hortas há também dezenas de pombos a ser alimentados pelos serviços que só têm sobrevivido por se conseguirem manter “em partes altas” e porque lhes está a ser levado alimento.


