Sociedade | 20-02-2026 21:00

Tempestades e cheias deixam rasto de milhões em vários municípios do distrito

Tempestades e cheias deixam rasto de milhões em vários municípios do distrito
José Fernando Martins, Manuel Mourato, Nuno Mira, Bruno Gomes e Joaquim Catalão

As sucessivas depressões que atingiram o distrito de Santarém deixaram um rasto de destruição difícil de quantificar, com prejuízos que já ascendem a centenas de milhões de euros e centenas de famílias afectadas. Mação, Ferreira do Zêzere, Chamusca, Vila Nova da Barquinha e Almeirim são dos concelhos mais afectados.

As depressões Kristin, Leonardo e Marta deixaram um cenário de devastação no distrito de Santarém, com prejuízos que atingem centenas de milhões de euros e autarcas a falarem em “tragédia”, “calamidade” e “desespero”. Casas destruídas, empresas paralisadas, equipamentos públicos danificados e centenas de famílias afectadas compõem um retrato duro de um território que ainda está longe de regressar à normalidade.
Em Mação, o presidente da câmara, José Fernando Martins, não hesita nas palavras: “Foi trágico, uma calamidade”. Semanas depois da tempestade Kristin, o concelho continua a contabilizar estragos agravados pelas cheias do Tejo. A zona norte ficou “muito destruída” e no sul, em Ortiga, a subida das águas arrastou parte dos passadiços ribeirinhos. O levantamento em curso aponta para prejuízos na ordem dos milhões de euros. No total, 52 pessoas ficaram sem condições de permanecer nas suas casas, correspondendo a 41 habitações inabitáveis. Nove continuam realojadas em instituições ou junto de familiares e duplicou o número de munícipes a necessitar de apoio psicológico. Há danos significativos em edifícios municipais, empresas, pavilhões industriais e nas praias fluviais de Carvoeiro e Cardigos. A Escola de Cardigos sofreu danos estruturais, entretanto estabilizados, e vários cemitérios foram atingidos por quedas de árvores. A autarquia recebeu já 580 formulários de registo de prejuízos.
Em Ferreira do Zêzere, o cenário é ainda mais pesado. O presidente da câmara, Bruno Gomes, estima prejuízos superiores a 200 milhões de euros e admite que o valor pode ser insuficiente para compensar todos os estragos. Cerca de 85% das habitações apresentam danos e, 17 dias depois da tempestade, aproximadamente 25% da população continua sem energia eléctrica. “Dezassete dias sem luz levam a um desespero emocional muito grande”, sublinha o autarca, que fala num sentimento de abandono e exige mais equipas no terreno. Só na produção de ovos, sector emblemático do concelho, a perda produtiva poderá ultrapassar os 100 milhões de euros. Já foram submetidas 157 candidaturas de apoio à reconstrução, num montante superior a um milhão de euros, mas a factura final poderá chegar aos 10 ou 15 milhões apenas em habitações.
Em Vila Nova da Barquinha, os prejuízos ascendem a largas centenas de milhares de euros. A frente ribeirinha foi fortemente afectada: o cais da Hidráulica e o do Castelo de Almourol foram arrastados pela corrente e o cais de Tancos sofreu danos estruturais. Há equipamentos infantis destruídos, taludes em risco de derrocada, património religioso com infiltrações e dezenas de habitações afectadas. Algumas famílias foram retiradas preventivamente das suas casas. “Nunca vi nada assim no concelho”, afirma o presidente Manuel Mourato.
Também na Chamusca a factura será pesada. O desabamento de terras e as derrocadas provocadas pela chuva intensa atingiram praticamente todas as freguesias do concelho, com especial gravidade na Parreira e no Ulme, onde taludes cederam, muros ruíram e várias vias ficaram comprometidas. O município terá de investir milhões de euros na consolidação de encostas, reconstrução de infraestruturas e reposição de condições de segurança, num território já pressionado pela erosão dos solos e pelo desgaste da rede viária.
Em Almeirim, os prejuízos nas infraestruturas municipais ultrapassam já um milhão de euros e o valor deverá aumentar quando as águas baixarem. Estradas submersas, telhados arrancados e danos volumosos na agricultura marcam o cenário. A EN114 está cortada no sentido Almeirim–Santarém e a EN118 condicionada, com impactos significativos na mobilidade de trabalhadores e empresas.
O Governo prolongou a situação de calamidade para 68 concelhos e anunciou apoios até 2,5 mil milhões de euros. Mantém-se activo o Plano Especial de Emergência para Cheias na bacia do Tejo. No distrito de Santarém, porém, a prioridade é outra: limpar, reconstruir e devolver dignidade a quem perdeu quase tudo.

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