Sociedade | 22-02-2026 12:00

Bibliotecas em caixas e cabines que vivem de livros doados

Bibliotecas em caixas e cabines que vivem de livros doados
No centro de Santarém as "Portas de Leitura" permitem a quem quiser encontrar livros para ler - foto O MIRANTE

Em Vila Franca de Xira, uma cabine ao estilo londrino é ponto de troca de livros, livre de burocracias. Em Santarém, as Portas de Leitura convidam à partilha de livros e saberes. O MIRANTE foi conhecer os dois projectos a propósito do Dia Internacional da Doação de Livros que se assinala a 14 de Fevereiro.

Pintada de vermelho garrido, bem ao estilo das cabines telefónicas que são símbolo icónico da capital de Inglaterra, a Cabine da Cultura nasceu em Vila Franca de Xira da vontade de criar um espaço acessível a todos, onde a leitura possa circular de forma fácil e livre. O conceito é simples: levar, ler e devolver. “Sem qualquer custo ou burocracia”, destaca o presidente da Junta de Freguesia de Vila Franca de Xira, Ricardo Carvalho, explicando que o principal objectivo é “estimular o gosto pela leitura e promover a partilha de livros entre pessoas de todas as idades”.
Instalada junto ao mercado municipal da cidade, a cabine recebe livros deixados pela população, num apoio que o autarca descreve como “silencioso, mas constante”, sendo actualmente abastecida quase exclusivamente por doações. “Não tem a ver com investimento financeiro, mas com investimento cultural e comunitário”, sublinha numa conversa com O MIRANTE a propósito do Dia Internacional da Doação de Livros, que se assinala a 14 de Fevereiro.
O espaço está organizado de forma prática, com obras destinadas a diferentes públicos, desde literatura infantil a romances, livros de história, obras de autores reconhecidos e livros académicos, permitindo uma oferta diversificada a qualquer pessoa. Esta é para o autarca uma boa forma de combater o desperdício, promover a leitura e reforçar os laços comunitários, colocando os livros ao alcance de todos.
Ricardo Carvalho sublinha que o projecto tem tido boa adesão por parte da comunidade, com uma rotatividade constante de livros, o que demonstra o envolvimento da população e o interesse pela iniciativa. “É um projecto vivo, que só funciona porque as pessoas participam”, diz o autarca, acrescentando que a cabine é também um símbolo de confiança e de civismo.

Furtos e vandalismo obrigaram à relocalização da cabine
Criada em 2019, com inspiração no conceito das bibliotecas de rua, a cabine foi inicialmente instalada na zona ribeirinha da cidade, onde foi alvo de sucessivos episódios de vandalismo e furtos. Vidros partidos, portas danificadas e livros retirados em grande quantidade levaram a junta de freguesia a proceder a várias reparações. Segundo Ricardo Carvalho, houve situações em que “alguém chegou com uma carrinha e levou praticamente todos os livros”, o que acabou por comprometer o funcionamento do projecto naquele local.
Perante a repetição dos danos e os elevados custos de manutenção, a autarquia decidiu retirar a cabine da localização inicial e proceder à sua recuperação, optando posteriormente por instalá-la junto ao mercado municipal, na Rua Manuel Afonso Carvalho, numa zona mais visível e com maior circulação de pessoas. A nova localização tem permitido reduzir os episódios de vandalismo e garantir maior segurança ao equipamento.

Santarém de portas abertas para a leitura
Em Santarém, num formato diferente mas com objectivo semelhante nasceram as Portas de Leitura para potenciar e promover os hábitos de leitura na comunidade escalabitana. Situadas no Jardim da Liberdade, em frente ao ISLA, a escolha deste local esteve assente em critérios como a facilidade de acesso dos utilizadores, a grande movimentação de pessoas na zona e a facilidade de manutenção, efectuada pelo ISLA duas vezes por semana.
Inseridas no âmbito do ISLA Voluntário, as Portas de Leitura são compostas por uma estrutura física metálica, com um longo pé que suporta uma caixa com duas portas envidraçadas, na qual se inserem os livros. Na parte exterior da caixa, estão descritos os objectivos, as regras de utilização e a origem/história do nome. As indicações apontam que os livros deixados devem estar em bom estado de conservação, sendo pedido aos utilizadores que substituam os livros que levam e que mantenham o espaço limpo.
A administradora delegada do ISLA Santarém, Filipa Martinho, comenta que o objectivo foi cumprido, pois tem havido grande adesão da comunidade, o que trouxe fluidez ao processo. Esta iniciativa levou mesmo a que várias pessoas se dirigissem à instituição de ensino de modo a agradecer pelo projecto e a encorajá-lo, sublimando a sua relevância para a localidade. Ao ter conhecimento da inauguração das Portas de Leitura, o escritor escalabitano Carlos Vieira realizou uma doação do seu livro Jardim das Emoções, no qual deixou uma dedicatória especial.

Projecto vive da doação de livros e tem nome inspirado na cidade
A escolha do nome, Portas de Leitura, teve inspiração na história da cidade, conhecida pelas suas muralhas e pelas suas portas antigas que permitiam acolher viajantes e novas culturas, e também num dos símbolos/locais mais emblemáticos da cidade: as Portas do Sol. Este nome estabelece um paralelismo entre a abertura da cidade a novos visitantes e culturas e o facto de as Portas de Leitura se encontrarem sempre abertas a acolher novos livros, num convite à aprendizagem e partilha de novos saberes. O nome escolhido procurou encapsular a missão de promover a leitura como ponte para o futuro e o conhecimento, associada à tradição, à história e à identidade escalabitanas.
Aquando da sua inauguração, as obras disponíveis foram cedidas pelo ISLA, que também organizou uma iniciativa interna de recolha de livros no sentido de alimentar as Portas de Leitura. A ideia principal é permitir que qualquer pessoa leve um livro, ou vários, numa dinâmica de troca livre, convidando à partilha de livros e de saberes, pelo que não existe uma tipologia de livro ou organização definidas.

Em Vila Franca de Xira a cabine da cultura foi mudada do jardim Constantino Palha um espaço junto ao mercado municipal - foto O MIRANTE

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