Sociedade | 24-02-2026 15:00

Bullying nas escolas: denúncias não revelam toda a dimensão do problema

Bullying nas escolas: denúncias não revelam toda a dimensão do problema
Em 2022, O MIRANTE contou a história de António Branco que sofre de alopecia, doença que lhe provoca a queda de cabelo. Numa acção solidária, alunos de Benavente raparam ou cortaram o cabelo e as meninas apanharam-no. - foto arquivo O MIRANTE

O bullying continua a marcar a realidade das escolas na região, muitas vezes longe dos números oficiais e escondido atrás do silêncio das vítimas. Apesar das denúncias formais não indicarem um aumento expressivo na região, professores, forças de segurança e autarcas admitem que o problema é mais vasto do que as estatísticas revelam.

A violência em meio escolar continua a ser uma realidade transversal nas escolas do Ribatejo, seguindo a tendência nacional e até de países da União Europeia. Embora não existam dados estatísticos desagregados especificamente para a região, os números nacionais e os relatos recolhidos por O MIRANTE nos últimos anos mostram que o fenómeno está longe de ser residual e que exige prevenção, denúncia e intervenção coordenada.
A nível nacional, o cenário tem sido preocupante. Números de 2023, do programa Escola Segura da Polícia de Segurança Pública, registaram 3.824 ocorrências em meio escolar, 2.708 das quais de natureza criminal, um aumento de 9% face ao ano anterior. A maioria dos crimes (77%) ocorreu dentro dos próprios estabelecimentos de ensino.
Para o psicólogo clínico Paulo Sargento, que nesse ano esteve numa conferência em Aveiras de Cima, a violência escolar pode assumir múltiplas formas, incluindo bullying e cyberbullying, com consequências que vão do stress traumático à fobia escolar e abandono precoce. Carlos Anjos, antigo inspector da Polícia Judiciária e presidente da Comissão de Protecção às Vítimas de Crimes, também nessa sessão, defendeu que a escola deve criar mecanismos de denúncia simples e informais numa fase inicial. Lembrou ainda que em Portugal se suicidam cerca de mil pessoas por ano, incluindo jovens entre os 11 e os 19 anos, alguns dos quais vítimas de bullying.

Histórias que revelam o problema
Tal como O MIRANTE noticiou na altura, em Benavente, o caso de António Branco tornou-se símbolo de solidariedade. Diagnosticado com alopecia aos quatro anos, o aluno da Escola EB 2,3 Duarte Lopes sofria em silêncio com comentários dos colegas. A iniciativa “Todos são Antónios e Antónias”, em que colegas raparam o cabelo ou usaram-no apanhado em sinal de apoio, ganhou repercussão nacional. Mas, como alertou o professor Daniel Teixeira, o problema estrutural permanece. “O António era apenas um exemplo do que acontece com muitos outros meninos”, sublinha. Segundo o docente, o bullying manifesta-se muitas vezes de forma encapotada: exclusão em sala de aula, enxovalho sistemático ou discriminação por pobreza.

Prevenção e responsabilidade partilhada
Em Abrantes, o vereador João Morgado manifestou recentemente preocupação com o aumento de episódios de violência escolar e defendeu maior investimento em técnicos especializados, como psicólogos, além de reforço das parcerias com forças de segurança. O município reconhece que, apesar da transferência de competências na área das infraestruturas e recursos humanos, a responsabilidade pedagógica e disciplinar continua a caber aos agrupamentos e ao Ministério da Educação.
Sem estatísticas regionais próprias, o Ribatejo enquadra-se nos padrões nacionais e internacionais. Estudos indicam que entre 16% e 28% dos alunos em Portugal relatam envolvimento em situações de bullying, seja como vítimas ou autores. No cyberbullying, a vitimização ronda os 7% a 8%. Relatórios recentes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico identificam ainda grupos mais vulneráveis: rapazes, alunos imigrantes, jovens de minorias ou que se destacam por diferenças físicas, sociais ou económicas.

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