Grávidas entregues a enfermeiros especialistas num SNS à beira do limite
Despacho que reconhece autonomia aos enfermeiros na vigilância de gravidezes de baixo risco chega num momento crítico para os hospitais, sobretudo no distrito de Santarém, onde os encerramentos de urgências de obstetrícia e a falta de médicos são uma realidade recorrente.
A decisão do Governo de avançar com um projecto que permite aos enfermeiros especialistas em Saúde Materna e Obstétrica acompanhar grávidas de baixo risco nos centros de saúde está a ser vista como um sinal claro de desespero do Serviço Nacional de Saúde (SNS). Na região ribatejana, onde os constrangimentos nas urgências de ginecologia e obstetrícia se tornaram frequentes, a medida ganha contornos ainda mais sensíveis.
O Observatório de Violência Obstétrica (OVO-PT), em carta aberta à ministra da Saúde, considera que o despacho “é o atestado de óbito de uma política de recursos humanos falhada”. Para a associação, delegar a vigilância de baixo risco nos enfermeiros especialistas é justo do ponto de vista das competências destes profissionais, mas não resolve os problemas estruturais que têm fragilizado o SNS.
No distrito de Santarém, as populações conhecem bem essa fragilidade. O encerramento de urgências de ginecologia e obstetrícia no Hospital Distrital de Santarém, Hospital Vila Franca de Xira, ou no Hospital de Abrantes, tem sido uma constante em vários fins-de-semana e períodos críticos, obrigando grávidas a percorrer dezenas de quilómetros para encontrar atendimento disponível. Em momentos de maior pressão, muitas utentes são encaminhadas para Lisboa, Leiria, Caldas da Rainha ou Alentejo, com impacto directo nas famílias e riscos acrescidos num período particularmente sensível. O cenário tem sido noticiado pelo nosso jornal, que tem dado voz a utentes e autarcas preocupados com a perda de resposta hospitalar na região. O OVO-PT sublinha que a medida agora anunciada surge depois de anos de fechos sistemáticos de urgências e da saída de profissionais para o sector privado. “Esta decisão não nasce de uma visão estratégica de saúde pública, mas sim da incapacidade de fixar médicos no SNS”, acusa a associação.
No Ribatejo, a dificuldade em contratar e reter médicos de medicina geral e familiar e especialistas hospitalares é apontada como uma das causas para a instabilidade dos serviços. A nova solução prevê que, em zonas com baixa cobertura médica, a vigilância de gravidezes de baixo risco passe a ser assegurada por enfermeiros especialistas nos centros de saúde. Embora reconheça a preparação destes profissionais, o Observatório alerta para o risco de a autonomia da enfermagem ser usada como “cortina de fumo” para o desmantelamento das equipas multidisciplinares. Exige ainda respostas sobre o acompanhamento no pós-parto, uma lacuna que, segundo a associação, continua por resolver.


