Joaquim Ferreira: o barbeiro que deixa saudades em Santarém
Nunca aprendeu a ler nem a escrever mas conhecia Santarém como poucos. Durante décadas, a sua cadeira de barbeiro foi palco de histórias, notícias e amizades que marcaram gerações.
A história de Joaquim da Silva Alves Ferreira confunde-se com a própria vida social de Santarém. As raízes da família na cidade começaram quando o pai ali se fixou para pintar o Teatro Rosa Damasceno, trazendo consigo uma herança humilde e trabalhadora que moldaria o percurso do filho. Desde muito cedo, Joaquim Ferreira aprendeu a arte de barbeiro. Foi ofício e missão de vida. Num tempo em que a profissão exigia técnica apurada e mão firme, trabalhou sempre “à moda antiga”, de lâmina na mão e destreza no gesto, conquistando clientes pela precisão do corte e pela conversa franca.
Sem nunca ter aprendido a ler ou escrever, mantinha-se informado graças aos clientes que lhe liam o jornal enquanto aguardavam a sua vez. Era assim que acompanhava o pulsar da cidade e do mundo. Interessava-se pela vida local, discutia assuntos da actualidade e fazia do seu espaço muito mais do que uma barbearia. Sportinguista convicto, viveu na Portela das Padeiras antes de se mudar para a Travessa do Montalvo, no coração da cidade. Mas foi atrás da cadeira de barbeiro que construiu a sua verdadeira morada social. Começou na Rua Guilherme de Azevedo, conhecida como Rua do Central, e mais tarde transferiu o negócio para o Largo dos Pasteleiros, onde permaneceu até 2020, ano em que a pandemia fechou portas a um espaço que durante décadas esteve sempre aberto.
A barbearia era ponto de encontro de amigos e desconhecidos, um centro informal de convívio onde se trocavam notícias, confidências e gargalhadas. Joaquim tinha uma forma única de acolher. A sua energia e abertura fizeram dele uma figura acarinhada, alguém que criava laços profundos com quem por lá passava.
Homem de família, deixou dois filhos, a quem transmitiu os valores do trabalho e da responsabilidade comunitária. Carlos Ferreira construiu uma carreira dedicada à saúde pública, tendo sido director executivo do Agrupamento de Centros de Saúde Lezíria, com participação activa em congressos, conferências e formação em todo o país. Já José Ferreira seguiu caminho na indústria farmacêutica, onde acumulou sucessos profissionais. Deixa também cinco netos, Catarina, Diogo, Duarte, João e Inês, que guardam memórias do avô e dos cortes de cabelo feitos com carinho e mestria. Entre filhos, netos e bisnetos, fica um legado feliz, profundamente enraizado em Santarém.
Mais do que um barbeiro, Joaquim Ferreira foi um homem da comunidade. A cidade perde uma das suas figuras maiores do quotidiano, mas ganha a certeza de que, enquanto houver histórias para contar, o seu nome continuará a ecoar nas conversas à porta das lojas e nas memórias de quem por ele passou.


