Sociedade | 26-02-2026 15:00
Há idosos a dormir no chão em Casal dos Bernardos
Um mês depois da depressão Kristin, há colchões no lixo, casas encharcadas e uma aldeia no concelho de Ourém que resiste à força da entreajuda.
Um mês depois da passagem da depressão Kristin, a freguesia de Casal dos Bernardos, no concelho de Ourém, continua a viver entre infiltrações, telhados por reparar e colchões destruídos. A prioridade, agora, é simples e urgente: garantir camas secas para os mais idosos. “Foi preciso retirar os colchões, porque foram para o lixo”, relata Georgina Pereira, assistente social do Centro Social da aldeia. Ao todo, cerca de 80 idosos foram particularmente afectados por uma tempestade que atingiu “drasticamente” a povoação.
Depois do primeiro embate do vento, a chuva persistente, a humidade e o frio fizeram o resto. Sem telhas nem barrotes em muitas habitações, os quartos ficaram encharcados e a qualidade de vida degradou-se drasticamente. Parte da roupa de cama ainda está a ser recuperada, mas muitos colchões acabaram amontoados num descampado, impróprios para uso. No Centro de Dia, ao lado da junta de freguesia, as infiltrações persistem. As máquinas de lavar e secar trabalham sem descanso para garantir roupa limpa a quem mais precisa. “Só espero que as ‘minhas máquinas’ não se avariem e que não falhe a luz”, confessa Georgina Pereira. Quando a electricidade falha, a alternativa é lavar à mão.
A freguesia, com cerca de 800 habitantes, tem uma população envelhecida, com muitos residentes acima dos 80 e 90 anos. Não há centro de saúde nem médico de família. Muitas receitas médicas perderam-se com a intempérie. Coube ao Centro de Dia reorganizar a medicação, procurar prescrições em freguesias vizinhas e distribuir os medicamentos porta a porta. A higiene pessoal é assegurada com panelas de água quente e “banhos de cafeteira”, quando a pressão da água não permite usar o chuveiro. Nos primeiros dias, as limpezas foram “inglórias”: mal terminavam, a chuva voltava a estragar tudo. Apesar das dificuldades, a resposta tem sido marcada pela entreajuda. Helena Pontes, responsável pela cozinha, garante que as refeições continuam a chegar a idosos e crianças.
Entretanto, parte da aldeia já recuperou electricidade e água, mas as telecomunicações continuam deficientes e os danos nas habitações mantêm-se visíveis. Árvores cortadas permanecem amontoadas junto às estradas, lembrando que a tempestade passou, mas os seus efeitos continuam bem presentes. “Às vezes ouço o vento e penso que vai cair alguma coisa outra vez”, desabafa Georgina Pereira, confessando o desgaste emocional de um mês de luta constante.
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