O “112 dos animais” do Cartaxo nunca desliga o telefone
Numa antiga lixeira nasceu um abrigo que hoje é referência no combate ao abandono. A APAAC transformou indignação em missão e mantém, há três décadas e meia, um serviço invisível que nunca fecha portas nem vira costas.
Há 35 anos que, no Cartaxo, há quem não vire costas ao abandono. Na sede da Associação de Protecção aos Animais Abandonados do Cartaxo (APAAC), cada latido conta uma história de sobrevivência. Fundada em 1990, numa altura em que o bem-estar animal mal tinha expressão pública, a associação nasceu da persistência de um pequeno grupo onde se destacam Maria do Rosário, hoje com 70 anos, e Veladimiro Elvas, fundador e actual presidente. Foi numa antiga lixeira que começaram a erguer o abrigo. “Naquela altura ainda não havia sensibilização. Era vista como a mulher dos cães”, recorda Maria do Rosário, lembrando um tempo em que o activismo animal era encarado como excentricidade. Não havia protocolos nem apoios estruturados, apenas vontade e dinheiro do próprio bolso para garantir o essencial aos animais recolhidos.
Hoje, a APAAC acolhe cerca de 100 cães, conta com quatro funcionários e 18 voluntários e responde a chamadas a qualquer hora do dia ou da noite. Veladimiro Elvas resume a missão como um verdadeiro “112 dos animais”. O espaço actual foi cedido pela autarquia em meados dos anos 90, após anos de pressão e negociações. O presidente sublinha que, se o serviço fosse totalmente assumido pelo município, “custaria três vezes mais”. A associação mantém uma política firme: não aceita donativos monetários, privilegiando bens essenciais. Todos os cães são registados, esterilizados e acompanhados até à adopção. Embora o abrigo acolha apenas cães, a APAAC apoia também a esterilização de colónias felinas.
Resgates de risco e decisões que pesam
O trabalho de três décadas reflecte-se num Cartaxo praticamente livre de cães errantes. Mas o percurso tem episódios marcantes. Em 2023, 120 animais foram retirados de uma habitação por ordem judicial e acolhidos pela associação. Apesar da sobrelotação, a maioria foi encaminhada para adopção. A vitalidade do abrigo depende também dos voluntários. Isabela Silva, há mais de um ano na associação, dedica-se sobretudo à socialização dos cães. “Alguns nem sempre sabem comportar-se na companhia de outros, é importante ambientá-los ao abrigo”, explica. Já Sofia Patrocínio, voluntária há mais de dois anos, começou depois de resgatar uma cadela encontrada na linha de comboio. Hoje é responsável pela dinamização das redes sociais, criou o website da APAAC e está por detrás de iniciativas como a venda de calendários com os animais disponíveis para adopção.
O risco é real. Veladimiro Elvas admite a necessidade de um seguro específico para voluntários: “Uma mordidela no peito ou na cara é para toda a vida.” O presidente recorda ainda um resgate numa autoestrada, marcado pela tensão e perigo. Mas a parte mais difícil continua a ser quando um animal tem de ser abatido. “A troca de sentimentos quando sabemos que ele vai morrer e ele sabe que estamos a tratar da morte dele é muito difícil”, confessa. Para Isabela Silva, também é doloroso ver animais envelhecerem no abrigo sem nunca terem tido um lar. Veladimiro contrapõe com outra perspectiva: “Apesar de não terem uma família, sempre foram bem tratados com o carinho de todos os que trabalham aqui.”
O perfil de abandono mantém-se semelhante ao longo dos anos, muitas vezes associado a caçadores ou a alterações nas condições de vida dos donos. Com a obrigatoriedade do microchip, o controlo é maior, mas a sazonalidade persiste. O processo de adopção começa com o contacto dos interessados, visita ao abrigo e avaliação de compatibilidade, sendo partilhadas todas as informações sobre cuidados e características do animal. Nos próximos meses estão previstas obras no espaço com apoio municipal, a criação de um mural artístico, caminhadas solidárias e campanhas de sensibilização. A APAAC quer reforçar a ligação às juntas de freguesia, apostar na educação cívica e continuar a combater os maus-tratos domésticos, hoje a maior preocupação em matéria de bem-estar animal no concelho.


