Sociedade | 03-03-2026 15:00

Em Vila Franca de Xira ouviram-se testemunhos de quem sofre do alcoolismo

Em Vila Franca de Xira ouviram-se testemunhos de quem sofre do alcoolismo
Núcleo de Vila Franca de Xira dos Alcoólicos Anónimos tem sido um apoio para quem quer deixar de beber. Grupo assinalou 31 anos de existência  - foto O MIRANTE

Durante décadas, o consumo de álcool foi vivido em silêncio por muitos dos que hoje procuram ajuda no núcleo de Vila Franca de Xira dos Alcoólicos Anónimos. Na sessão aberta que assinalou os 31 anos de existência do grupo foram partilhados testemunhos de vida, sobre uma adição que afecta homens e mulheres sem olhar a idade, profissões e contextos sociais. Num espaço protegido pelo anonimato, a recuperação constrói-se todos os dias, um dia de cada vez.

O álcool entrou silenciosamente na vida de Helena, hoje com 64 anos. Tinha e tem trabalho, marido, filhos, estabilidade financeira e amigos que nunca a viram verdadeiramente embriagada. Bebia em maiores quantidades quando estava sozinha e manipulou sempre os consumos de álcool para manter as aparências. Tudo era motivo para brindar e beber mais um copo, quer fossem coisas boas ou menos positivas, até porque Helena sabia que aguentava mais o álcool no organismo do que as outras mulheres. Quando pensava que tinha um problema, depressa o pensamento fugia, porque dizia para si própria que estava tudo bem. O marido e os filhos encontravam sempre justificações para o facto de a verem beber álcool, sem saber que os consumos continuavam às escondidas dos seus olhares.
Começou a beber álcool com vinte e poucos anos e só entrou nos Alcoólicos Anónimos (AA) com 60 anos. “Foram anos e anos a viver angustiada, entre o que era certo e o que era errado. Às vezes ia trabalhar no dia a seguir e estava cansada. Depois era lidar com a culpa e a vergonha de alguém descobrir”, relata. Aos poucos, e ainda antes de se tratar, o álcool foi isolando-a das outras pessoas, e perdeu o interesse em sair e ir ao cinema, por exemplo. Preferia ficar em casa para poder beber à vontade. A culpa era tão grande que, quando começou nos AA, foi em segredo, e ainda hoje agradece o apoio e a partilha nesta comunidade.

O alcoolismo não é um vício, é uma doença
O testemunho de Helena foi um dos que esteve em cima da mesa na última reunião aberta do núcleo de Vila Franca de Xira dos AA. Para assinalar os 31 anos de existência, o núcleo abriu as suas portas no dia 14 de Fevereiro, numa sessão que contou com a presença de vários membros dos AA, homens e mulheres de várias faixas etárias, e alguns familiares.
Sónia Oliveira, psicóloga na Unidade de Toxicodependência e Alcoolismo do Hospital das Forças Armadas, foi convidada para a sessão. Com uma carreira dedicada ao acompanhamento de pessoas dependentes do álcool, referiu que o alcoolismo não é um vício, mas sim uma doença crónica em que os consumos vão aumentando e prolongando-se no tempo, provocando danos nas estruturas cerebrais. “Com muita frequência as pessoas chegam e dizem-me que não têm nenhum problema de saúde, porque a quantidade de álcool que bebem não tem equivalência no seu comportamento, uma vez que já têm uma tolerância elevada. Por exemplo, até podem ir a conduzir muito direitinhas, o polícia manda parar, sopra ao balão e acusa 1,9. Têm um problema de álcool porque, com esta quantidade, não deveriam ter conseguido levantar-se do sítio onde estavam a beber”, exemplificou.
De acordo com a psicóloga, o padrão de consumo nos mais jovens tem vindo a mudar. Há pessoas que passam a semana sem beber, mas, a partir de sexta-feira às 19h00, bebem até à noite de domingo, para depois se recomporem e regressarem, na segunda-feira, à vida normal. Socialmente o que começa a acontecer é que a vida passa a centrar-se na possibilidade de voltar a beber, mesmo quando já se perdeu o emprego, os amigos e a família.
Sónia Oliveira explica que a recuperação da doença é também biopsicossocial. Aqui entra o trabalho dos AA, em que quem chega à comunidade é tratado como uma pessoa importante. Recebem abraços, números de telefone e a experiência de quem já passou pelo mesmo processo, alguns há décadas, mas que continuam a fazer parte do núcleo dos AA.
Um dos dinamizadores do núcleo de Vila Franca de Xira, João, está sóbrio há mais de duas décadas. O grupo teve altos e baixos ao longo dos anos, mas quem aparece tem sempre resposta. Quem chega a VFX é normalmente reencaminhado pelos Alcoólicos Anónimos de Portugal, através do número nacional. Actualmente, o grupo conta com membros dos concelhos de Vila Franca de Xira, Benavente e Alenquer. Já houve alturas em que nas reuniões semanais eram mais mulheres do que homens, mas também já aconteceu o contrário; não existem padrões. Um dos últimos pedidos de ajuda partiu de uma senhora com 71 anos. “Os AA são para quem se quer tratar. Sendo obrigado, não resulta. E esta é a adição pior, por ser a de acesso mais fácil. Depois há também a parte social do ‘o que vais beber?’”, refere.

Um núcleo com décadas de trabalho discreto
João diz que, apesar de o núcleo de VFX ter 31 anos, muitos desconhecem a sua existência. Os cartões dos AA são distribuídos e afixados em locais públicos, mas a resposta não chega a todos. Já houve alturas em que as reuniões dos AA aconteciam duas vezes por semana, agora acontecem aos sábados, das 21h00 às 22h30, no centro da cidade de Vila Franca de Xira.
“O Verão é uma fase tremenda. É a época das recaídas. As férias, uma esplanada, uma cervejinha, só uma não faz mal… O mal é a primeira garrafa ou a primeira bebida. Não aconselhamos a cerveja sem álcool, porque tem na mesma o gosto da cerveja e potencia recaídas”, alerta.
O anonimato nos AA nunca pode ser quebrado. Nos últimos sábados de cada mês é realizada uma reunião aberta a familiares e amigos, caso queiram comparecer. “Fiquei um bocadinho chocado, aqui há uns anos, com um jovem de 17 anos dizer aos pais que estava com problemas de álcool e que queria tratar-se. Temos também um rapaz na casa dos trinta e poucos anos que começou a beber com vinte e poucos e ainda se mantém. Aqui dentro, somos todos iguais. Não há títulos”, conta João.

Aprender a viver um dia de cada vez

Com 53 anos, Nuno recorda que começou a beber aos 31, sobretudo quantidades massivas de cerveja. Quando começava, não contava as quantidades nem as garrafas; contava por horas. Podiam ser 24 ou 36 horas a beber. Deixou de beber assinalando os dias no calendário - “só por hoje não bebo” - e os dias foram passando. Estudou, leu livros sobre a adição ao álcool, estudou religião e dedicou-se a aprofundar a sua espiritualidade. “Trabalhei a personalidade para me tornar uma pessoa melhor”, sublinha.
No seu percurso deixou o trabalho numa autarquia para trabalhar numa funerária, a ganhar o dobro do salário, mas a trabalhar sete dias por semana. Quando via os mortos pensava na sorte que tinha em estar vivo. Pediu desculpa à família, incluindo ao pai, que também tinha uma relação complicada com o álcool. Nos AA continua a dar o seu testemunho e a ajudar quem precisa. “Aqui não são precisos filtros. Posso falhar, aprender e conviver com esta doença crónica, progressiva e mortal que é o alcoolismo”, diz.

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