Centro Cultural de Achete nasceu da falta de espaço e cresceu à força da vontade
Nasceu porque a aldeia precisava de um espaço. Cresceu porque a população nunca deixou cair as suas tradições. Quase 40 anos depois, o Centro Cultural e Recreativo Típico de D. Fernando continua a ser o motor de Achete, guardião da memória colectiva e palco onde a comunidade se reencontra.
Quase 40 anos depois da fundação, o Centro Cultural e Recreativo Típico de D. Fernando continua a ser o coração de Achete, no concelho de Santarém. Mantém tradições seculares, mobiliza gerações e prova que, numa aldeia, a cultura não é um luxo, mas sim um ponto de encontro. O Centro Cultural e Recreativo Típico de D. Fernando nasceu da necessidade. Em 1987, a população de Achete percebeu que já não bastava improvisar bailes num barracão emprestado ou organizar festas ao ar livre, junto à capela. Era preciso criar uma estrutura formal que desse corpo ao dinamismo da terra. Hoje, além do edifício-sede, o centro ajuda a manter o coreto inaugurado em 1969, assegura a continuidade da quermesse criada nos anos 70 e cuida da Capela de Nossa Senhora da Aracela, conhecida como Senhora do Leite, um dos símbolos maiores da identidade local.
Segundo a tradição, a capela terá sido promessa de Filipa de Lencastre, casada com João I de Portugal. Grávida do infante Santo Fernando de Portugal já em idade avançada, temendo não ter leite para amamentar o filho, a rainha terá prometido erguer ali uma capela. “Gostávamos de basear isto em documentos históricos, mas até hoje não os encontrámos”, admite Miguel Inácio, presidente da colectividade, sublinhando o valor da memória transmitida de geração em geração.
Uma direcção grande para dividir tarefas
A actual direcção conta com 15 elementos, oito mulheres e sete homens, contrariando a tendência de predominância masculina nos órgãos associativos. Cinco transitaram da equipa anterior, garantindo continuidade; os restantes trouxeram energia nova. Miguel Inácio, assistente administrativo e licenciado em gestão, lidera o centro há quase dois anos. Defende uma direcção alargada para evitar o desgaste num trabalho que é, assumidamente, voluntário. Ao seu lado estão Adriana Peitaço, presidente da mesa, e Rui Sousa, vice-presidente. A rotatividade é vista como uma virtude. O equilíbrio entre experiência acumulada e novas perspectivas permite que o que poderia ser uma obrigação pesada se transforme numa experiência sustentável e gratificante.
O ponto alto do ano é a Festa em Honra de Nossa Senhora da Aracela, celebrada no fim-de-semana mais próximo de 2 de Fevereiro. São meses de preparação para três dias intensos. “Três dias de festa e cinco horas de sono”, resume o presidente, entre sorrisos. A procissão das velas é o momento mais emblemático. Centenas de pessoas percorrem cerca de 400 metros com o caminho iluminado. Seguem cinco andores e as tradicionais fogaças, transportadas à cabeça pelas mulheres da terra. Entre os elementos mais aguardados estão os bolos ferraduras, leiloados durante a festa, único momento do ano em que podem ser adquiridos. Há quem visite Achete de propósito para participar nesse ritual.
Ao longo do ano, o centro mantém um calendário preenchido. Os bailes de Carnaval enchem o salão “tanto ou mais do que a festa”, embora sem retorno financeiro significativo. A prioridade, garante a direcção, é o convívio. No 1.º de Maio, cerca de 200 pessoas reúnem-se num almoço comunitário, com convites entregues porta a porta. Em Julho realiza-se o Festival do Bacalhau, aposta recente da nova direcção, com propostas como massa à barrão, torricado ou bitoque de bacalhau. Em Dezembro, o Jantar do Leitão encerra o ciclo festivo com preços pensados para a comunidade.
A quermesse, apesar de organismo autónomo, funciona como escola de dirigentes. Foi ali que Miguel Inácio e Adriana Peitaço começaram a vender rifas de 10 cêntimos. “Pode parecer simples, mas é aí que se aprende a gerir recursos e a criar laços”, sublinham. O centro financia-se através do peditório anual nas aldeias vizinhas, rifas, donativos de patrocinadores e receitas dos eventos. A actual direcção aposta numa organização mais estruturada para criar margem financeira, mas recusa a lógica empresarial. “O objectivo não é ter lucro. É trazer alegria”, afirma Miguel Inácio. Ainda assim, a gestão equilibrada permitiu recuperar a música ao vivo após 15 anos de ausência, trazendo artistas como Augusto Canário e Rebeca às festas da localidade.
Entre a devoção à Senhora do Leite e a aposta no Festival do Bacalhau, o Centro Cultural D. Fernando vive da capacidade de conciliar tradição e renovação. A rotatividade nos órgãos sociais garante “perspectivas diferentes e um olhar mais novo”, como refere Rui Sousa, sem abdicar dos símbolos que moldam a identidade da terra.


