Sociedade | 06-03-2026 10:00

Comboio em Vila Franca de Xira vai acabar com a cidade como a conhecemos

Comboio em Vila Franca de Xira vai acabar com a cidade como a conhecemos
Passagem de nível do cais de VFX vai ser eliminada e os dois edifícios à esquerda, na imagem, terão de ser demolidos - foto O MIRANTE

Moradores e comerciantes da zona do cais de Vila Franca de Xira não estão satisfeitos com o projecto de duplicação da Linha do Norte, que obrigará a demolir edifícios e eliminar a actual passagem de nível. Admitem que vão acabar por ser vencidos pelo cansaço e já há quem tenha fechado portas para não mais voltar à zona.

Ainda a duplicação da Linha do Norte em Vila Franca de Xira não avançou e já a velha peixaria do cais, que ficava do outro lado da passagem de nível da cidade, fechou portas e já não volta. Mesmo a tempo, porque com o actual plano da Infraestruturas de Portugal (IP) o edifício tem a sentença lida: é um dos que vai ter de ser demolido, juntamente com a actual sede do clube de campismo As Sentinelas. “Não quiseram esperar por esta fatalidade”, confessa Alfredo Sousa, residente da zona a O MIRANTE, que de voz embargada diz estar “profundamente comovido” com o que diz ser um ataque à rua onde vive há meio século. “Vou ficar até morrer, mesmo que tentem vencer-nos pelo cansaço. Tiram-nos os acessos e vamos acabar por ter de sair, ou velhos ou já mortos e ninguém volta para aqui”, critica, considerando que mais valia a IP expropriar todos os moradores da zona e indemnizar quem ali vive, criando novos espaços públicos no local.
Vários residentes da zona do cais, situada entre o rio e a linha de comboio, ouvidos esta semana por O MIRANTE, estão apreensivos quanto ao futuro e ao projecto da IP que, dizem, lhes vai roubar qualidade de vida, acessos e mobilidade. Fernando Clemente, 72 anos, dono do restaurante A Cancela há 44 anos, é um dos que acredita que o futuro está traçado. “Vejo isto com muita tristeza. Vão duplicar a linha mas sem o meu apoio. VFX não merecia isto. Durante muitos anos conseguimos viver aqui com a linha, agora querem tirar-nos o pouco que ainda nos resta”, lamenta. Fernando é dono de um edifício que vai ter de ser expropriado, ao lado da linha de comboio. Até agora não foi contactado mas diz que independentemente do que lhe venham a pagar pelo edificado isso nunca será suficiente para o muito que a cidade vai perder. “A tendência é as coisas terminarem aqui. Vamos acabar por fechar. É uma pena. VFX está morta e mais morta vai ficar sem estas ligações ao cais que hoje existem”, critica.

70 participações e um “risco social”
Um dos espaços que dinamiza a zona é a tertúlia Cirófila, situada mesmo à beira rio e que mobiliza dezenas de pessoas. A zona do cais é, para o seu presidente, Miguel Santos, “o melhor cantinho do mundo” que, depois das obras de modernização da Linha do Norte, pode desaparecer. “Vai ficar em causa. Isto vai fazer com que a cidade fique ainda mais de costas voltadas para o cais e o rio. Estou receoso e muito apreensivo que se venha a criar uma barreira ainda maior do que a que existe. Temo que esta zona venha a ficar mais isolada e descaracterizada. Muito se recuperou nos últimos anos, trazendo vida para a frente ribeirinha e agora temo que isto venha deitar tudo a perder”, lamenta a O MIRANTE.
A consulta pública do projecto encerrou a 27 de Fevereiro e teve 70 participações de pessoas e entidades. Entre elas a Câmara de Vila Franca de Xira, que discutiu e concertou uma posição com todas as forças políticas representadas no executivo. O município defende a urgência de intervenção, mas alertando que a ausência de medidas adequadas pode isolar o norte do concelho do sistema ferroviário metropolitano, dificultando o acesso a Lisboa e à Azambuja.
Defende que a operação da alta velocidade não deve avançar sem salvaguardar as actuais ligações a Lisboa e à Azambuja e considera prioritário reduzir riscos de cheia no território ribeirinho, proteger infraestruturas críticas, reforçar a arborização urbana e a permeabilidade do solo. Na sua participação, exige à IP rigor na avaliação de impactos (ruído, vibração, trepidação), compensações adequadas e garantia de qualidade de vida das populações. É considerada insuficiente a análise feita ao factor vibração, sobretudo quanto ao impacto no edificado e na propagação ao longo da zona intervencionada.
A câmara considera essencial a realização prévia de um Estudo de Circulação em Alhandra, a análise detalhada da EN10 entre a futura intersecção sul e a antiga Cimianto, a manutenção em funcionamento da actual passagem superior durante a construção da nova e a apresentação de um Plano de Acessibilidades, garantindo o Direito à Cidade durante e após a obra, bem como a realização de um estudo da inclusão de um parque de estacionamento subterrâneo no novo terminal rodoferroviário de Vila Franca de Xira.
A câmara quer também como medidas compensadoras pela obra a conclusão do nó II de VFX à A1; criação de novas rotundas na zona da Cimianto e sob o viaduto da A1 em Alhandra; autorização de um novo ramal ferroviário simplificado na Plataforma Logística da Castanheira do Ribatejo; e a deslocalização das portagens de Alverca para essa zona logística.
Também o movimento ambientalista Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente (GEOTA) declarou-se favorável ao projecto, “condicionado ao cumprimento rigoroso das medidas de optimização e compensação”. Em comunicado, o GEOTA aponta, nomeadamente, as medidas em matéria de resiliência climática, manutenção dos espaços de uso público e melhoria significativa tanto dos serviços ferroviários como das ligações intermodais, “com resultados verificáveis e impacto efectivo na segurança, acessibilidade, qualidade urbana e desempenho do serviço”.
Avisa, porém, que a ocupação total do canal ferroviário com a necessidade de remodelar as estações para uma funcionalidade intermodal moderna, traduz-se numa “pressão efectiva sobre o tecido edificado e sobre o espaço público ribeirinho, incluindo a demolição ou afectação de dezenas de edifícios, o realojamento de algumas famílias e a ocupação de parcelas de uso colectivo, com perdas percebidas pela população como irreversíveis se não forem acompanhadas de contrapartidas claras, qualificadas e monitorizáveis”. Para o grupo ambientalista, “esta percepção de risco social, amplificada por associações locais e pelo debate autárquico, exige um compromisso inequívoco de transparência e de resposta concreta às preocupações dos moradores”.

Fernando Clemente - foto O MIRANTE

Ainda a sessão pública da APA

Na última sessão pública realizada sobre o assunto em VFX pela APA, como O MIRANTE já deu nota, intervieram vários cidadãos que manifestaram preocupações sobre o tema. “Vamos ter com isto os comboios de que precisamos?”, questionou Olinda Lambuça, que criticou fazer-se obra em leito de cheia e questionou como será feito o socorro na zona do cais de VFX com os poucos acessos que ficam previstos.
Já André Arrojado lembrou o elevado custo que este projecto terá para a comunidade. “Este estudo não nos deve sossegar e confirma as preocupações anteriores. A passagem de nível e a sua supressão não é um impacto positivo para a população. É aquela passagem que garante que a vivência do rio e das gentes de VFX. Há uma opção deliberada de ignorar o risco de inundações, como consequência inevitável do desenvolvimento da Linha do Norte que é uma premissa que temos de contestar”, criticou.
Também Vítor Licaia lembrou que a passagem de nível que será suprimida está no centro da cidade e é por ela que muita gente acede à zona ribeirinha. “Quando a barreira está em baixo ninguém vai a 20 metros atravessar na passagem superior da biblioteca. As pessoas querem passar no centro da vila e por isso a passagem de nível é fulcral. O que resolvia era fazer uma passagem pedonal subterrânea. Devia ter sido considerada e tenho pena que os autarcas de VFX não tenham lutado por isso”, vincou. Por fim, Vítor Reis, expressou preocupações com as barreiras acústicas e lembrou a necessidade de uma análise de tráfego na zona norte da cidade.

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