Agricultores voltam a queixar-se do mau estado das estradas e da falta de condições de trabalho nas Caneiras
Estradas de campo na aldeia das Caneiras, nos arredores de Santarém, não se encontravam em condições dignas para os agricultores e agora, com as recentes cheias, ainda ficaram piores. A empresária Vera Alagoa luta por uma melhoria do estado das estradas há anos.
Não é novidade que as estradas de campo nas Caneiras não se encontravam em condições dignas para os agricultores da zona poderem facilmente aceder às suas propriedades, mas agora com as recentes cheias a situação piorou. Vera Alagoa, agricultora com terras e família na aldeia situada nos arredores de Santarém, luta há vários anos por melhores condições de trabalho e de acessibilidades para quem ganha a vida nos campos.
A agricultora explica a O MIRANTE que “há muitos anos que as estradas estão praticamente intransitáveis, cheias de buracos, e agora com as cheias a situação agravou-se”. Vera Alagoa, como muitos agricultores, já perdeu a conta ao que gastam em oficinas para reparar veículos, desde substituição de amortecedores, suspensões e outras peças que ficam partidas devido ao mau estado do piso. Conta ainda que muitos dos transportadores das fábricas se recusam a vir buscar as colheitas à zona devido ao estado das estradas, causando complicações na produção agrícola. “Se já estavam com bastantes buracos [...] agora estão mesmo intransitáveis”, vinca. Com as recentes cheias, as estradas encontravam-se submersas, assim como as culturas. O cenário foi assustador, refere Vera Alagoa. Muitos viram os seus campos destruídos, repletos de lixo e areia levada pela forte corrente do rio. Foram poucos os que escaparam. Vera Alagoa perdeu 10 hectares de milho, causando um prejuízo de quase 50 mil euros. A empresária espera receber ajuda do Estado para suportar os prejuízos.
“Dizem sempre que arranjam, mas acho que foi preciso vir esta cheia para o presidente da câmara ver em que estado estavam as estradas”, diz. Segundo a agricultora, o presidente João Leite prometeu mais uma vez que a situação seria resolvida, mas os agricultores duvidam da sua palavra. A junta informou que não tinham maquinaria, nem mão-de-obra disponível para arranjar as estradas, e que teriam de ser os próprios agricultores a resolver o problema. “Como é óbvio, não temos nem maquinaria nem recursos financeiros para o fazer”, assegura.
Segundo Vera Alagoa, para quem trabalha no campo a melhor solução seria alcatroar, pois com a estrada alcatroada haveria muitos benefícios para a produção, especialmente no Verão, facilitando o transporte da produção e a qualidade da mesma. “Se a estrada for alcatroada, acabam-se os problemas. Por exemplo, deixa de haver pó, situação que também prejudica a qualidade dos alimentos”, afirma a agricultora, realçando ainda o dever de já cumprirem as regras de estrada.
Força da água deixa rasto de destruição nas Caneiras
A força da corrente do rio Tejo não deu tréguas na aldeia ribeirinha das Caneiras, em Santarém. A localidade foi engolida pela água e ficou marcada por prejuízos avultados, casas destruídas e moradores em desespero perante a dimensão dos estragos. Grande parte das habitações foi invadida pela água, que não poupou paredes, eletrodomésticos, mobília nem memórias de uma vida inteira. O MIRANTE percorreu a aldeia e encontrou um cenário de devastação: caixotes do lixo a transbordar com colchões encharcados, sofás destruídos, armários partidos e electrodomésticos inutilizados, acumulados à porta das casas. À chegada, o impacto é imediato. O passadiço ribeirinho, habitualmente procurado por turistas, pescadores e moradores para momentos de lazer, apresenta o piso levantado, coberto de lama, areia e detritos arrastados pela corrente.
Numa das casas mais próximas do rio, Zé Paulo viu a água entrar sem dar tempo para grandes salvamentos. A habitação, situada mesmo na berma do Tejo, foi das primeiras a ser atingida. “Quando percebemos a dimensão da cheia já era tarde”, conta o morador, que teve de abandonar a aldeia após ordem de evacuação das autoridades. O interior da casa é um retrato da violência da água: tecto a ceder, azulejos a desprenderem-se, tomadas e interruptores inutilizados. Máquinas de lavar, frigoríficos e arcas cheias de alimentos ficaram irremediavelmente danificados. Sofás, camas e colchões foram arrastados ou ficaram encharcados. “Perdemos quase tudo”, resume. No meio da aflição, houve ainda o susto com o barco, que se desamarrou e quase foi arrastado até Valada. O paradeiro só foi conhecido depois de contacto das autoridades.
Ao longo da aldeia repetem-se os sinais de destruição: paredes fissuradas, tectos a cair, sistemas eléctricos comprometidos e habitações que exigem obras profundas antes de voltarem a ser habitáveis. Para muitas famílias, os danos não são apenas materiais, são também emocionais. Entre os moradores cresce a preocupação quanto aos apoios do Estado. Vários residentes afirmam que as casas que não tenham caderneta predial actualizada poderão ficar excluídas de eventuais ajudas públicas, o que aumenta a revolta numa comunidade que já enfrenta elevados custos de reconstrução.


