Sociedade | 07-03-2026 10:00

População de Ferreira do Zêzere ainda conta os destroços um mês após a tempestade

População de Ferreira do Zêzere ainda conta os destroços um mês após a tempestade
Regresso à normalidade está longe de ser uma realidade em vários locais do concelho de Ferreira do Zêzere - Foto: Sylvie Lopes e Pedro Mourinha

Depressão Kristin deixou um rasto de destruição avaliado em 200 milhões de euros. Casas recompostas, empresas a meio gás e centenas de famílias ainda a precisar de apoio.

Um mês depois da depressão Kristin, Ferreira do Zêzere tenta levantar-se do caos. A electricidade regressou a 99,9% das habitações, mas as marcas do temporal continuam bem visíveis nas ruas, nas empresas e, sobretudo, nas pessoas. Os prejuízos podem rondar os 200 milhões de euros e a reconstrução total deverá prolongar-se por mais de um ano. À entrada da vila, o cenário ainda impressiona: árvores partidas, postes retorcidos, sinalização derrubada. Nas ruas, multiplicam-se telhados cobertos com lonas, cacos de telha no chão, desvios de trânsito e funcionários municipais de pá e motosserra na mão, numa corrida contra o tempo para devolver alguma normalidade ao concelho. “É um regresso a uma normalidade relativa”, admite o presidente da câmara, Bruno Gomes. “Há muitos problemas para resolver nas infraestruturas públicas, nas telecomunicações e na recuperação social e empresarial, que vai levar meses”.
Nas aldeias, o trauma é visível. Em Meneixas, Fátima Marques lembra as mais de três semanas sem electricidade, agravadas pelo facto de o marido depender de um aparelho de apneia do sono. “As noites tornaram-se assustadoras. A falta de luz deixou marcas profundas em todos nós, sobretudo nas crianças”, conta. Em Sobreiras, Joaquim Henriques ainda remove restos de árvores. A noite do temporal foi tão violenta que, garante, viu um cão ser arrastado pelo vento até à sua porta. “Foi assustador. Nem quero imaginar algo assim outra vez”. Na Aldeia dos Gagos, onde vivem pouco mais de 20 pessoas, Fátima Simões mostra a casa ainda coberta por lonas. O telhado foi arrancado e a família passou semanas sem luz. “Pensávamos que íamos morrer. Hoje, quando o vento sopra, sentimos medo”, confessa.
O impacto psicológico é uma das maiores preocupações da autarquia. A vereadora com o pelouro da Acção Social e Políticas Humanas, Patrícia Gomes, revela que a câmara recebeu mais de quatro mil pedidos de ajuda. Neste momento, 379 famílias estão a ser acompanhadas. “Há pessoas que nos abordam a chorar. Não pelos estragos materiais, mas pelo medo que viveram. Muitas crianças entram em pânico ao ouvir o vento”, relata. O município já pediu apoio à Ordem dos Psicólogos, reconhecendo que os técnicos locais são insuficientes para dar resposta à dimensão do problema.
Conhecida como Capital do Ovo, Ferreira do Zêzere viu vários pavilhões industriais danificados. Telhados arrancados e produção suspensa marcaram as semanas seguintes ao temporal. Na indústria da madeira, a Casa Bang Wood sofreu perdas superiores a meio milhão de euros. O proprietário, Manuel Gonçalves, fala numa fábrica destruída, máquinas danificadas e dois a três meses de paragem forçada, sem seguro que cubra os prejuízos e com poucas expectativas de apoios externos. A retoma faz-se a passo lento, num concelho onde a economia local depende fortemente destas unidades produtivas.
Bruno Gomes reconhece que, nos primeiros dias após o temporal, a sensação foi de isolamento. “Muitas pessoas não sabiam como retomar a vida e nós próprios não tínhamos capacidade para resolver questões críticas como energia e comunicações”, recorda. Para o autarca, a depressão Kristin expôs fragilidades estruturais do interior do país e a necessidade de repensar o planeamento das infraestruturas críticas e a capacidade de resposta nacional a fenómenos extremos.

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