Sociedade | 09-03-2026 12:00

Ciberviolência sexual cresce nas escolas e atinge sobretudo raparigas

Ciberviolência sexual cresce nas escolas e atinge sobretudo raparigas
Casos começam cada vez mais cedo nas escolas - Foto gerada por IA

A violência digital tem rosto feminino e começa cada vez mais cedo. Escolas e famílias enfrentam um fenómeno silencioso que mina auto-estima, provoca ansiedade e já afecta o rendimento escolar de muitas adolescentes.

A ciberviolência de cariz sexual está a atingir desproporcionalmente raparigas e jovens mulheres, com ameaças, chantagens e partilha não consentida de imagens íntimas. O alerta é lançado por um estudo da Plataforma Portuguesa para os Direitos das Mulheres (PpDM), que revela impactos profundos na saúde mental, no bem-estar e no percurso escolar das vítimas. Segundo o relatório, enquanto os rapazes são sobretudo alvo de insultos e discurso de ódio, as raparigas enfrentam formas de violência com natureza sexual: envio de fotografias explícitas não solicitadas, pressão para partilha de conteúdos íntimos e divulgação de imagens privadas como forma de vingança ou humilhação. Em muitos casos, os agressores são colegas ou ex-namorados.

Problema que também marca o Ribatejo
Embora o estudo tenha incidido sobretudo na Grande Lisboa, Alentejo e Centro, a realidade não é estranha à região ribatejana. Nos últimos anos, várias escolas dos distritos de Santarém e Leiria têm promovido sessões de sensibilização sobre “sexting” e violência digital, sinal de que o problema já chegou às salas de aula. O MIRANTE tem dado conta de acções promovidas por municípios como Santarém, Torres Novas e Vila Franca de Xira em parceria com forças de segurança e psicólogos escolares para alertar para os perigos da exposição digital e da partilha de imagens íntimas. Em testemunhos partilhados por encarregados de educação da região, surgem relatos de jovens que abandonaram temporariamente a escola após a divulgação de fotografias privadas em grupos de WhatsApp.
Psicólogos escolares têm sublinhado em iniciativas públicas que os casos raramente chegam a tribunal, mas deixam marcas profundas: crises de ansiedade, isolamento, automutilação e queda abrupta no aproveitamento escolar. “A vergonha é muitas vezes maior do que a vontade de denunciar”, referiu recentemente uma técnica numa sessão pública em Santarém.
O estudo da PpDM confirma esta ligação entre o mundo digital e o real: muitas vezes a violência online é a continuação de relações abusivas presenciais. O acesso permanente às redes sociais facilita a perseguição e prolonga o sofrimento. Apesar de muitos jovens afirmarem sentir-se informados sobre o fenómeno, persiste uma banalização dos seus efeitos. Entre rapazes, a tendência para desvalorizar situações de violência digital é maior, o que dificulta a mudança de comportamentos.

Falta apoio especializado
O relatório aponta ainda para a fragilidade dos mecanismos de apoio e defende uma intervenção urgente: serviços especializados para vítimas, formação reforçada para forças de segurança e magistrados e linhas de apoio sensíveis à idade e ao género. A directiva europeia que tipifica crimes de violência digital abre caminho a uma resposta mais firme, mas especialistas defendem que a legislação só será eficaz se acompanhada por prevenção consistente nas escolas.

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