Clube de aldeia com 300 habitantes em Tomar quer voltar aos grandes palcos do hóquei nacional
Mecânico aeronáutico no Alto Alentejo e presidente associativo numa aldeia com 300 habitantes, aos 38 anos, David Costa divide a vida entre aviões e sonhos desportivos e quer levar a ACR Santa Cita a um patamar mais alto.
Aos 38 anos, David Costa gere equipas de manutenção aeronáutica durante o dia e, nas horas vagas, conduz os destinos de uma das mais emblemáticas colectividades do concelho de Tomar. Director de manutenção na Sevenair Academy, em Ponte de Sor, é desde Julho de 2025 presidente da Associação Cultural e Recreativa de Santa Cita (ACR Santa Cita), instituição com mais de meio século de história cultural, recreativa e desportiva. Um desafio que muitos considerariam impraticável, para David Costa é uma missão.
Nascido na Suíça, regressou ainda criança a Portugal com os pais, fixando-se na Portela, concelho de Tomar. Cresceu entre duas paixões: o desporto e a música. Praticou judo durante 12 anos e integrou a Sociedade Filarmónica Gualdim Pais, onde tocou fagote, experiência que lhe incutiu disciplina e espírito de grupo. Formou-se em mecatrónica industrial no Entroncamento e, em plena crise económica, entrou em 2007 na OGMA - Indústria Aeronáutica de Portugal. Especializou-se na manutenção de F-16 e helicópteros SA-330 PUMA, funções que desempenhou até 2019. Seguiu-se um novo desafio em Ponte de Sor, no Aeródromo Municipal, na manutenção de aeronaves ligeiras e comerciais. Em Abril de 2025 foi promovido a director de manutenção da Sevenair Academy. Poucos meses depois assumia outra responsabilidade de peso: a presidência da ACR Santa Cita.
Uma ligação que começou pelo filho
A história com Santa Cita não começou por tradição familiar, mas pelo desporto. Em 2017, quando era presidente da associação de pais do Centro Escolar de São Pedro, o filho mais velho aderiu ao projecto de captação de jovens atletas da colectividade, nas modalidades de hóquei em patins e patinagem artística. A ligação foi crescendo. Em 2025, perante a saída da anterior presidente e a fragilidade da instituição, até então gerida por uma comissão administrativa, avançou com uma candidatura aos órgãos sociais. “Não posso estar a 100%, mas estou de alma e coração”, resume.
Sediada numa aldeia com cerca de 300 habitantes, maioritariamente envelhecida, a ACR Santa Cita mantém duas modalidades federadas: hóquei em patins (benjamins, escolares e seniores) e patinagem artística, com cerca de 20 atletas. Atletismo e BTT completam a oferta, ainda que sem filiação federativa. O grande destaque vai para a equipa sénior de hóquei, que ocupa o 3.º lugar da Série C da 3.ª Divisão Nacional, com 33 pontos em 13 jogos, a apenas três pontos da liderança. A subida à 2.ª Divisão é uma ambição real. “Seria um orgulho enorme para uma aldeia do interior, com poucos recursos humanos e técnicos”, afirma o presidente, que não esconde a confiança no plantel jovem e na equipa técnica.
Apesar do peso da vertente desportiva, a associação mantém um calendário cultural que inclui a festa anual em honra de Nosso Senhor Jesus das Necessidades, o Congresso das Sopas e o apoio à Aldeia Natal de Santa Cita. Mas os recursos são escassos. A falta de voluntários e o desgaste das infraestruturas, nomeadamente o pavilhão, são desafios permanentes. Está nos planos a requalificação do espaço e a criação de um ginásio aberto à comunidade. Recentemente, os fenómenos climatéricos destruíram o toldo exterior da sede, limitando actividades e convívios. Ainda assim, a associação disponibilizou o seu pavilhão a clubes mais afectados, como o Sporting Clube Marinhense e o Sport Clube Leiria e Marrazes. “Há rivalidade dentro de campo. Fora dele, há solidariedade”, sublinha David Costa.


