Da infância modesta ao topo da indústria mundial: Carlos Tavares lança livro na Póvoa de Santarém
Antigo líder da Stellantis apresentou livro autobiográfico com receitas a reverter para o Centro de Solidariedade Social Nossa Senhora da Luz e deixou críticas à burocracia e à exigência de “líderes perfeitos”.
A aldeia da Póvoa de Santarém encheu-se para ouvir um dos gestores portugueses mais influentes das últimas décadas. Carlos Tavares, antigo presidente executivo da Stellantis, apresentou no dia 27 de Fevereiro o seu livro autobiográfico numa sessão solidária que se transformou também num espaço de reflexão sobre o país, a economia e o papel de cada cidadão na construção do futuro.
A obra, intitulada “O Português que Revolucionou a Indústria Automóvel Mundial”, foi apresentada no Centro de Solidariedade Social Nossa Senhora da Luz e tem fins solidários, revertendo integralmente as receitas para a instituição. “Todos os livros que têm na mão contribuem para ajudar esta instituição”, sublinhou o gestor perante uma sala composta por moradores, dirigentes associativos e autarcas.
Num registo pessoal, Carlos Tavares recordou a infância numa família de classe média onde o trabalho árduo era regra. Falou do esforço dos pais e avós, das longas jornadas que garantiram a sua formação e da convicção precoce de que a única saída era “para cima”. Aos 16 anos partiu para França com uma bolsa atribuída pelo Estado francês, oportunidade que lhe permitiu concluir os estudos de engenharia e abrir caminho na indústria automóvel. Anos mais tarde, já em funções de liderança, considera ter “pago essa dívida” ao ajudar a recuperar a Peugeot num dos momentos mais críticos da marca.
“Não existem líderes perfeitos”
Para além da dimensão biográfica, a sessão ficou marcada por mensagens políticas e económicas. O antigo responsável da Stellantis criticou a exigência de exemplaridade absoluta nos dirigentes, defendendo que essa pressão afasta pessoas competentes da vida pública. “Uma das razões pelas quais nunca me candidatarei a um cargo político é porque não respeito as expectativas de qualquer eleitorado que queira um líder perfeito”, afirmou, defendendo maior empatia na avaliação dos responsáveis e uma distinção clara entre o essencial e o acessório.
Sobre o país, deixou um diagnóstico directo: Portugal tem potencial, mas está excessivamente travado por regras e procedimentos administrativos. Para Carlos Tavares, o excesso de burocracia consome tempo e recursos que deveriam ser canalizados para actividades produtivas. Defendeu a meritocracia, a igualdade de oportunidades e a coesão social como pilares do desenvolvimento, apelando a que o país “largue o travão” para gerar mais riqueza e dinamismo económico. “Este jardim à beira-mar ainda é uma grande família”, afirmou, valorizando também os pequenos gestos de proximidade que reforçam o tecido social. No final houve espaço para perguntas e autógrafos, numa sessão que reforçou a ligação do gestor à freguesia onde mantém residência e onde, em Dezembro de 2025, foi distinguido como associado honorário do centro social.


