Sociedade | 11-03-2026 21:00

O robô cirurgião que chegou ao Médio Tejo e ganhou a confiança dos doentes

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Robot cirúrgico chegou ao Médio Tejo e ganhou a confiança dos doentes
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Robot cirúrgico chegou ao Médio Tejo e ganhou a confiança dos doentes

Na ULS do Médio Tejo, um robô cirúrgico entrou ao serviço à boleia de fundos europeus. O director de departamento e coordenador do projecto, Firmo Mineiro, fala do momento como “um grande marco”, ao mesmo tempo que um doente oncológico é operado pelos braços do robô. Entre ganhos de precisão e conforto para o doente, a implementação avança sem recusas e com a ambição de atrair novos profissionais e alargar as cirurgias pouco invasivas a mais especialidades.

O dia em que um doente oncológico entra num bloco operatório para fazer a remoção de um tumor dificilmente é esquecido. Ainda para mais se essa intervenção for realizada por robô cirúrgico com múltiplos braços, comandado à distância por um cirurgião. Foi o que aconteceu com um paciente com lesões no intestino que, a 25 de Fevereiro, aceitou ser um dos primeiros a ser operado por cirurgia robótica no Hospital de Tomar. “Ainda agora começámos, mas das pessoas que seleccionámos não houve recusa. Os doentes querem é ser operados e se lhes dissermos que podem sê-lo de forma segura e minimamente invasiva”, dificilmente haverá recusa. A convicção é do cirurgião e responsável pelo Departamento Cirúrgico da Unidade Local de Saúde (ULS) do Médio Tejo, Firmo Mineiro, que fala a O MIRANTE enquanto a cirurgia, a cargo do cirurgião Carlos Boto, decorre no bloco operatório.
“Tecnicamente é muito mais seguro, o cirurgião tem uma melhor visão. É como se estivesse a operar via aberta mas com uma visão melhorada”, explica o coordenador do projecto do lado de fora do bloco. Lá dentro, a um canto da sala operatória, o cirurgião opera a máquina Hugo RAS, um sistema de cirurgia robótica modular, de última geração, projectado para cirurgias minimamente invasivas que se destaca por ser portátil, com braços independentes e visão 3D. Ao centro, deitado na maca, o utente tem inseridos, através de pequenas perfurações na barriga, os braços robóticos que se vão movendo sob comando do cirurgião. “O sistema avalia milésimos, milímetros, microssegundos do movimento”, explica.
O projecto, que resulta de um investimento de 2,4 milhões de euros financiado pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), ainda agora arrancou, mas já soma mais de uma mão cheia de intervenções realizadas com recurso a esta tecnologia. A equipa iniciou o processo com cirurgias simples e frequentes, como colecistectomias e apendicectomias, em doentes com perfil clínico favorável, avançando agora para a área oncológica, numa implementação progressiva e cuidadosamente planeada. Para o cirurgião, que já “sonhava com este projecto há muito tempo”, é o início de uma nova era.

A primeira cirurgia oncológica com recurso a tecnologia robótica vai ficar como um marco histórico desta ULS? É um grande salto para a saúde no Médio Tejo e um grande marco; é o princípio de uma nova era. E não estamos sozinhos: há vários hospitais empenhados neste grande projecto que, tal como a ULS do Médio Tejo, não quiseram perder o comboio. Já fazíamos cirurgia laparoscópica, mas a cirurgia robótica é um passo à frente. É mais simples, mais fácil, mais intuitiva. A médio, longo prazo, vamos envolver mais especialidades.
Porque foi o Hospital de Tomar o escolhido para implementar a robótica na ULS? Porque Tomar é a unidade com as melhores condições, nomeadamente ao nível das salas operatórias. Grande parte da actividade cirúrgica está centralizada aqui, e o pólo de referência de cirurgia é o Hospital de Tomar. Em termos de estratégia, centralizando-se aqui a grande cirurgia, a ambulatória passaria toda para Torres Novas. Isto implicou uma alteração da forma de pensar e achámos que a robótica devia ficar aqui centralizada.
Já há indicadores clínicos preliminares das primeiras intervenções realizadas? Ainda é cedo. Estamos com um mês de intervenção. Os doentes têm consulta ao primeiro mês, por isso só em meados de Março vamos ter feedback mais completo. Mas não há registo de complicações importantes.
Há ganhos de tempo nas intervenções? O tempo cirúrgico é sobreponível ou até menor do que o da cirurgia laparoscópica. Há ganho porque a técnica é muito mais ergonómica e extremamente intuitiva. Por exemplo, numa operação à vesícula, que geralmente demora 25 minutos, conseguimos 15. Fizemos uma apendicectomia pré-tumoral com aderências em 50 minutos. E acredito que, de futuro, conseguiremos melhor, pois ainda nos estamos a treinar em termos de montagem do equipamento e posicionamento do doente que é diferente.
E o tempo de internamento pós-operatório? Será, à partida, mais curto. A robótica trouxe melhorias significativas para o pós-operatório, no controlo da dor, por exemplo. Quando se diz que as mãos de um cirurgião são de anjo tem a ver com a precisão. Se este for muito delicado com as mãos, o pós-operatório do doente será francamente melhor, sem dor, menores perdas de sangue e, neste caso, não há mãos, mas um sistema menos invasivo.
Pode explicar, de forma simples, como se opera? É como se fosse quase um brinquedo operado através de um joystick. Na verdade, são dois comandos e pedais. Basicamente, o cirurgião está sentado, com um monitor à frente, a operar à distância. Há um detalhe muito interessante: o cirurgião tem de estar a olhar para o ecrã. Se desviar o olhar, nem que seja por um segundo, o sensor de movimento da cabeça regista e a máquina bloqueia.
Já tiveram alguma falha do sistema? Tivemos um pormenor técnico: houve uma diferença, em milésimos de segundo, entre o gesto e o movimento da pinça, e o sistema bloqueou logo. Isso mostra que é extremamente preciso e seguro.
Quais são as vantagens para o doente oncológico? Numa cirurgia oncológica o nosso espírito, concentração, responsabilidade e dedicação são diferentes. Sentimos uma grande responsabilidade, até porque embora possamos ter uma ideia do que vamos encontrar pelos exames da TAC, da tomografia, da ressonância, as surpresas são uma constante. E este sistema é tecnicamente mais seguro, com melhor precisão e visão.
Houve da parte dos profissionais de saúde alguma resistência a esta forma de operar? Não, o que houve foi entusiasmo, até demasiado, pois temos muitos profissionais a querer avançar. Neste momento temos dois cirurgiões habilitados e dois enfermeiros, mas vamos alargar. Por norma um cirurgião vai atrás da novidade, da tecnologia de vanguarda e este sistema que recebemos é uma novidade.
Considera então que pode ajudar a captar médicos para a região? Ter robótica é um ponto de atracção para novos profissionais e, neste caso, já noto maior procura. Foi um dos argumentos apresentados ao conselho de administração e a sensibilidade do presidente [Casimiro Ramos] para esta aposta foi total. Já estamos a receber propostas de cirurgiões que não querem só vir trabalhar na urgência, mas ter alguma actividade no serviço. E quando entrarmos em velocidade cruzeiro vai entrar a urologia, a ginecologia, eventualmente com colegas novos que já querem entrar no projecto.
Operar “à distância” não reduz a dimensão humana? A parte humana é no pré e no pós. No intraoperatório a responsabilidade mantém-se, diria até que é melhor, pela definição de imagem... Parece que estamos a “viajar” pelo corpo, mas é real. Deixamos de ter doente à nossa frente e estamos a olhar para um ecrã, mas aquilo é a sério. Um cirurgião não perde o doente do pensamento.
Acompanhou o processo de formação e credenciação internacional da equipa. Como foi a experiência? É curioso, porque tinha tido um acidente de mota e estava com a mão engessada. Fui convocado para ir à Bélgica, mas só ia para assistir. Acabei a operar com a mão engessada. Eu próprio não acreditava que seria possível, mas consegui estar a operar à distância, sem precisar de luvas. Trabalhei com apenas três dedos e só foi possível porque este sistema o permite. Fiz o que nunca faria se fosse em cirurgia convencional ou laparoscopia.
Ainda não operou, no Hospital de Tomar, usando esse sistema. Está com vontade? Muita, fiquei fã. Mas primeiro quis dar lugar aos mais novos, porque são o futuro. Para já fico na retaguarda, a tapar buracos na urgência para que eles possam estar a operar.

Cirurgião com raízes no Médio Tejo

Firmo Mineiro é cirurgião e responsável pelo Departamento Cirúrgico da ULS do Médio Tejo. Formado em cirurgia geral, soma mais de duas décadas de experiência, tendo iniciado o seu percurso em Santarém. Antes de Tomar, concelho onde tem raízes familiares, passou pelo Hospital Rainha Santa Isabel, em Torres Novas, onde reside. Além de responsável, foi um dos impulsionadores deste projecto inovador, cujo volume de investimento, confessa, “ultrapassou todas as expectativas”. Projecto há muito sonhado e que, destaca, foi bem recebido pelo conselho de administração da ULS.

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