Sociedade | 12-03-2026 21:00

António Lobo Antunes morreu aos 83 anos: escritor chegou a ponderar criar Casa da Literatura em Torres Novas

António Lobo Antunes morreu aos 83 anos: escritor chegou a ponderar criar Casa da Literatura em Torres Novas
O escritor chegou a visitar o edifício da antiga escola do Almonda, em Torres Novas, onde poderia ter nascido uma Casa da Literatura dedicada à sua obra - Foto Expresso

Morte de António Lobo Antunes, um dos mais importantes escritores portugueses contemporâneos, fez recordar um projecto que chegou a aproximá-lo de Torres Novas. Em 2008, o município chegou a preparar um protocolo para instalar na cidade uma futura Casa da Literatura com o espólio do autor e ceder-lhe uma residência na antiga escola do Almonda, mas a iniciativa acabaria por não avançar.

A morte de António Lobo Antunes, um dos maiores escritores da literatura portuguesa contemporânea, faz recordar uma história pouco conhecida que ligou o autor a Torres Novas. Em 2008 chegou mesmo a estar em cima da mesa a criação de uma Casa da Literatura na cidade, onde o escritor poderia instalar-se durante parte do ano e deixar o seu espólio literário ao município. António Lobo Antunes, Prémio Camões 2007, morreu na quinta-feira, 5 de Março, aos 83 anos. Médico psiquiatra de formação e autor de uma obra literária marcante, definia-se como um “caçador de palavras”, assumindo que escrevia romances como forma de enfrentar a depressão que dizia existir em todas as pessoas.
Em Janeiro de 2008, o executivo municipal aprovou, numa reunião privada, a minuta de um protocolo que previa a cedência ao autor de uma “habitação de férias” no concelho. O edifício identificado para esse efeito era a antiga escola do primeiro ciclo do Almonda, que seria alvo de obras de reabilitação. O acordo previa a utilização do espaço durante um período inicial de vinte anos, em regime de comodato. Em contrapartida, António Lobo Antunes comprometer-se-ia a ceder ao município o seu acervo literário pessoal, composto pela sua biblioteca, incluindo primeiras edições das suas obras, manuscritos, objectos pessoais, fotografias, pinturas, bem como prémios e condecorações recebidos ao longo da carreira. O objectivo era criar em Torres Novas um núcleo literário designado Casa da Literatura, dedicado à conservação e divulgação do espólio do escritor. Na minuta do protocolo podia ler-se que “é do interesse do município de Torres Novas criar um espaço para conservação e divulgação do espólio de António Lobo Antunes, no âmbito da política de revitalização cultural consagrada nos projectos Cidade Criativa e Torres Novas.pt (ponte para todos), que passa pela recolha, conservação e disponibilização ao público de novos acervos artísticos e literários de relevo”.
O escritor chegou mesmo a deslocar-se a Torres Novas para visitar o edifício que lhe seria destinado. No entanto, o protocolo nunca chegou a ser assinado e o projecto acabou por ser abandonado sem que tenha sido divulgada qualquer explicação pública. A única ligação conhecida do autor ao concelho prendia-se com o facto de o seu irmão, Pedro Lobo Antunes, falecido em 2013, residir então em Torres Novas e desempenhar funções como vereador na autarquia presidida por António Rodrigues (PS).
Nascido em Lisboa a 1 de Setembro de 1942, António Lobo Antunes licenciou-se em Medicina pela Universidade de Lisboa em 1969 e especializou-se em psiquiatria após regressar da guerra colonial em Angola, para onde foi mobilizado em 1970. O primeiro livro, “Memória de Elefante”, foi publicado em 1979, no mesmo ano em que saiu “Os Cus de Judas”, romance que rapidamente se tornou uma das obras mais emblemáticas sobre a guerra colonial. Seguiram-se títulos que consolidaram o seu lugar na literatura portuguesa, como “Fado Alexandrino”, “Manual dos Inquisidores”, “O Esplendor de Portugal” ou “Sôbolos rios que vão”, entre quase três dezenas de romances. Traduzido em dezenas de países e frequentemente apontado como candidato português ao Prémio Nobel da Literatura, Lobo Antunes recebeu ao longo da carreira inúmeros prémios nacionais e internacionais, entre os quais o Prémio Camões em 2007.
Para o escritor, os livros tinham vida própria e pertenciam sobretudo a quem os lia. Talvez por isso defendesse que, idealmente, o nome na capa deveria ser o do leitor. Mesmo assim, o seu nome ficará inevitavelmente inscrito entre os maiores da literatura portuguesa.

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