Sociedade | 12-03-2026 12:00

Rasto de destruição nos campos da lezíria devido às descargas descontroladas das barragens

Rasto de destruição nos campos da lezíria devido às descargas descontroladas das barragens
Cheias rápidas provocadas pelas descargas das barragens deixaram um rasto de destruição nas zonas ribeirinhas do Ribatejo - foto O MIRANTE

As últimas cheias do Tejo deixaram perplexos os habitantes que vivem mais perto do rio devido à rapidez com que a água inundou alguns locais onde não era normal chegar nas cheias de outros tempos. Albufeiras de todo o país chegaram a descarregar 500 milhões de metros cúbicos de água em apenas dois dias.

Três horas depois de ter saltado as margens nos campos da Chamusca, a água já estava nas hortas, onde em cheias consideradas normais costuma demorar o triplo do tempo. A anormal descarga das águas das barragens terá sido a causa de um nível de destruição pouco visto nas terras do campo, como se pode comprovar nas imagens que O MIRANTE publica nesta reportagem. Segundo informações oficiais da APA, houve a descarga de 500 milhões de metros cúbicos de água das albufeiras de todo o país em apenas dois dias, numa tentativa de reduzir o risco de inundações graves. O problema é que, em muitos locais do país, não se morreu do mal morreu-se da cura. O volume de água descarregado equivale, de acordo com a mesma fonte, a cerca de três vezes o consumo anual da Área Metropolitana de Lisboa, onde vivem cerca de três milhões de pessoas.
Ao longo das margens, desde a Chamusca até Alpiarça, até onde foi possível fazer reportagem, há prejuízos que sem a ajuda do Estado jamais justificam as despesas com máquinas e mão de obra para trazer de volta o solo fértil da Lezíria. Numa propriedade da família Raposo, de Alpiarça, o nível de destruição é uma coisa nunca vista. No local, a maracha cedeu e o rio arrastou as terras e espalhou areia numa área superior a 30 hectares, deixando longos rasgos na terra, em alguns locais superiores a quatro metros de altura. Postes de electricidade arrancados, sistemas de rega destruídos, são apenas a soma mais pequena causada pelo rombo da maracha que abriu uma praia para a Lezíria.
Por ser uma área do rio onde a maracha costuma ceder, nem mesmo o reforço que tem sido feito ao longo dos anos, evitou o pior devido à força da corrente do rio que durou pouco, mas o suficiente para causar danos ao longo de todo o curso do rio, principalmente do lado dos campos da Chamusca e Vale de Cavalos. Há dezenas de propriedades com os mesmos problemas, mas com rombos mais pequenos, situações em que a água não destruiu a maracha, mas ao saltar e devido à velocidade, abriu imensas crateras nas terras e espalhou areia que chega em alguns casos a um metro de altura.
O assoreamento do rio Tejo contribui de forma evidente para que qualquer cheia, mesmo com os cuidados devidos a quem controla a água das barragens, deixe sempre um rasto de destruição. Desta vez foi muito para além do que era esperado. Apesar das promessas do apoio aos agricultores, muitos já trabalham por conta própria, uma vez que as terras para o milho e o tomate têm que começar a ser lavradas e preparadas.

Ambientalistas querem mais transparência

Depois de vários anos marcados pela seca, o cenário alterou-se radicalmente e muitas albufeiras apresentam agora níveis de armazenamento muito elevados. A associação ambientalista Quercus quer que a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) passe a divulgar relatórios mensais detalhados sobre o destino da água armazenada nas albufeiras, numa altura em que as barragens atingiram níveis máximos após as tempestades de Janeiro e Fevereiro. O objectivo, sustenta a organização, é garantir uma gestão mais rigorosa, transparente e eficiente de um recurso estratégico. Em comunicado, a Quercus considera que a actual abundância hídrica não pode ser encarada como garantia de segurança futura e defende que a APA deve indicar, com clareza, quanto tempo poderão durar as reservas em cenários de seca extrema. A associação propõe ainda que seja discriminada, barragem a barragem, a percentagem de água consumida pelos sectores humano, industrial e agrícola, de forma a identificar ineficiências e a assegurar que a água é preservada para usos prioritários, como a rega em períodos de escassez.
Para a Quercus, esta informação detalhada permitiria um maior escrutínio público sobre a gestão das reservas e ajudaria a evitar perdas económicas e ambientais causadas pela falta de controlo e de medição rigorosa. Outro dos pontos centrais das críticas prende-se com a produção de energia hidroeléctrica, que, segundo a associação, aumentou 17,8% desde o início de 2026. A organização argumenta que as empresas do sector, por beneficiarem directamente do enchimento das barragens, devem contribuir para o fundo público de apoio a catástrofes através de uma sobretaxa sobre lucros extraordinários.
A presidente da Quercus, Alexandra Azevedo, criticou também a inactividade do Conselho Nacional da Água, que diz estar “parado há três anos”, e apelou à realização urgente de um plenário com especialistas para discutir a gestão da água em Portugal. Para a responsável, só com fiscalização pública e debate técnico será possível prevenir falhas, desperdícios e decisões que comprometam o futuro de um recurso cada vez mais valioso.

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