Filipa Rodrigues sobreviveu ao horror e rompe o silêncio da violência doméstica para salvar outras vidas
Sofreu agressões, insultos, ameaças. Foi violada e mutilada pelo homem que um dia amou. Viu a vida por um fio, como tantas outras mulheres, mas sobreviveu. O ciclo de violência quebrou-se e Filipa Rodrigues tornou-se inspiração para quem se quer desamarrar das teias de um agressor. No último ano, 26 mulheres foram assassinadas em Portugal e 57 vítimas de tentativa de homicídio.
Depois de ter terminado a relação, decisão que não foi bem aceite, planeou a saída em segredo. Conseguiu arrendar uma casa, escondeu o contrato na mochila da filha, guardou a chave no salão de cabeleireiro que tem em Tomar, mas não teve tempo de pôr o plano em prática. Dois dias depois de ter assinado o contrato de arrendamento, Filipa Rodrigues viveu momentos de terror às mãos do ex-companheiro que marcariam para sempre a sua vida. Forçada a entrar no carro, foi agredida e violada. Viu o cabelo, as sobrancelhas e as pestanas serem-lhe rapadas e passou pela dor de ficar sem um dedo, cortado à tesourada pelo homem que um dia amou. “Acreditei mesmo que estava a viver os meus últimos momentos. Ele ia para me matar. Dizia que se não era dele, não era de mais ninguém, que não tinha nada a perder”, contou.
Passaram-se dois anos desde que relatou com coragem e detalhe ao Ministério Público os horrores que sofreu, quebrando assim um ciclo de 25 anos de violência física e psicológica. Hoje, com o ex-companheiro a cumprir uma pena de 16 anos de prisão, vive a vida com leveza e amor próprio. Nasceu uma nova Filipa que anda na rua com confiança, que deixou de se preocupar se vai chegar mais tarde a casa porque vai receber mais uma cliente no salão de cabeleireiro ou porque decidiu sentar-se numa esplanada a beber um café sozinha ou com amigas. “Tenho feito tudo o que nunca tinha feito na minha vida, sem estar com medo. E é maravilhoso”, diz.
Vive feliz, apesar de ainda revisitar, mais do que gostaria, memórias desses anos de violência que lhe deixaram marcas profundas, difíceis de apagar. Como a fotografia que o agressor lhe tirou depois de lhe ter batido, rapado o cabelo, cortado o dedo indicador da mão direita e lhe ter dito: quero ver quem te vai amar assim horrorosa. “Às vezes preciso de olhar para aquilo. Olho com pena daquela Filipa, mas com muito orgulho na pessoa em que me tornei. Porque podia ter-me entregado à depressão, à tristeza e fiz o contrário. Foquei-me na oportunidade que tinha e agarrei-me à vida, a viver. Porque eu não vivia, sobrevivia”.
Se recuar até ao início da relação, Filipa Rodrigues consegue agora encontrar bandeiras vermelhas que podia ter interpretado como um sinal de que estava a envolver-se com um agressor. “Sempre deu sinais. Cada vez que eu ia ter com as minhas amigas havia discussão e eu pensava que não devia ter ido”. Dizia-lhe que tinha ciúmes porque a amava e Filipa acreditava naquele discurso que agora sabe que era manipulador e revelador de uma obsessão. “Mas no início eu era completamente louca por ele. Foi ele que acabou com aquela magia toda pela forma como me tratava, porque eu era apaixonada por ele”, conta.
O ciúme, a manipulação e o amor próprio
Quando, depois de ser agredida e violada, viu o carro aproximar-se da Barragem de Castelo do Bode, um local associado a homicídios e suicídios, achou que não ia sobreviver àquela noite. Pensou em Deus e na amiga que já tinha partido. Sobreviveu e não se culpa por ter consciência que não estava preparada para dar esse passo antes, embora, por vezes, sinta pena de si própria por se ter permitido “passar por tanto”. “Estive três anos a fazer terapia para me preparar para me separar. Já estava a tentar há algum tempo, mas de alguma forma ele conseguia manipular-me. Fazia chantagem psicológica para ter pena dele e eu não me conseguia separar”. Também tinha, confessa, medo das consequências. “Sempre soube que ia haver consequências graves, ele sempre me avisou”. E Filipa, naquela altura “frágil e insegura”, foi-se deixando ficar entregue a uma vida de sofrimento. “As coisas só começaram a mudar quando comecei a gostar de mim. Quando aprendemos a amar-nos, aprendemos a exigir respeito e então não permitir que as outras pessoas nos falem mal”, afirma.
Uma vez, a filha que tem em comum com o agressor disse-lhe uma frase que a marcou e que foi, de algum modo, decisiva: dar segundas oportunidades é o mesmo que ler o livro duas vezes, já sabemos o final da história. “Quero que as mulheres percebam, e muitos homens também: por muitas promessas que haja eles [os agressores] não mudam. E quando nos tentam dar a entender que a culpa é nossa, temos de ter a consciência que não é. Eu sentia culpa porque ele dizia que se lhe desse mais atenção éramos mais felizes, que se estivesse mais tempo em casa éramos felizes. Só que, independentemente de tudo o que eu fizesse, nunca nada era suficiente para ele”.
Vítima do agressor e do sistema
Numa das várias vezes em que apresentou queixa por violência doméstica, Filipa Rodrigues recebeu o apoio imediato da Polícia, que lhe propôs a ida para uma casa-abrigo. “Eu é que tinha de me esconder, fugir, largar a minha vida”. Achou injusto e não aceitou. Agora é vítima do que considera ser mais uma injustiça. Com o agressor preso, está sozinha a suportar os empréstimos da compra do carro e casa, que estão em nome de ambos. “Se não pagar vou perder tudo. E tenho uma empresa, uma filha, tenho coisas que trabalhei tanto para elas…”, queixa-se.
Pediu ajuda aos bancos, para alargarem prazos, baixarem mensalidades, mas a solução que lhe apresentaram implicava ter de voltar a contactar com o seu agressor. “Como é óbvio não vou ter com ele à prisão, então estou a suportar tudo sozinha. Estou a conseguir porque trabalho mais horas, mas e as mulheres que dependem de um ordenado mínimo? Para mim, as vítimas continuam a ser vítimas”- não só do agressor mas do sistema - “porque ou pagas ou perdes tudo. Então ainda há muita coisa para ser mudada”.
Violência doméstica continua a ser o crime mais denunciado
A história de Filipa Rodrigues fez manchetes de jornais, passou na televisão. Foi voz e rosto da violência e transformou-se em exemplo e inspiração. “Tenho recebido mensagens incríveis de pessoas que não fazia ideia que estavam em situações idênticas e que me dizem: graças a ti, eu tive coragem. Por causa de ti consegui-me separar... mensagens de pessoas que nem conheço. É muito bom saber que valeu a pena falar”, diz emocionada. Até porque, adverte, ainda há muito caminho a fazer no que toca à protecção das vítimas.
A violência doméstica continua a ser o crime mais denunciado em Portugal. Só no último trimestre de 2025, quase 1.350 pessoas foram acolhidas na Rede Nacional de Apoio à Vítima, a maioria mulheres e crianças. Apenas 21 eram homens. A propósito do Dia da Mulher, assinalado a 8 de Março, a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) divulgou que ajudou nos últimos quatro anos 50.495 mulheres, representando um aumento global de 22,8%, a maioria por crimes de violência doméstica.
26 mulheres assassinadas em Portugal em 2025
Há no país tantas outras histórias a começar como a de Filipa Rodrigues e a acabar em violência ou mesmo em morte. A 6 de Março, um dia antes de se assinalar o dia de luto nacional em homenagem às vítimas de violência doméstica e no dia em que a cabeleireira de Tomar recorda a O MIRANTE o sofrimento que viveu, o Observatório de Mulheres Assassinadas revelou que 709 mulheres foram assassinadas entre 2002 e 2025 e que 939 foram vítimas de tentativa de homicídio, sendo que no último ano foram sinalizados 22 femicídios, todos cometidos por homens. Os dados dessa estrutura da União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR), dão também conta que em 2025 foram assassinadas 26 mulheres em Portugal e que 57 foram vítimas de tentativa de homicídio.


