Sociedade | 19-03-2026 10:00

Pai a 60 minutos: os desafios da paternidade na prisão

Pai a 60 minutos: os desafios da paternidade na prisão
João Lourenço, natural de Torres Novas, é pai de duas meninas e está a cumprir uma pena de sete anos e meio de prisão - foto O MIRANTE

Ser pai e recluso ao mesmo tempo é um desafio. Na balança pesa a decisão de contar a verdade para receber os filhos na prisão ou inventar narrativas e limitar o contacto a uma hora por dia ao telefone. A cumprirem pena de prisão no Estabelecimento Prisional de Torres Novas, dois reclusos falam desses e de outros desafios, como o tempo que já não volta e os sonhos das filhas que estão por cumprir.

Quando em 2016 cometeu o crime pelo qual foi condenado, João Lourenço, de 29 anos, ainda não era pai. Acredita que se fosse não estaria hoje atrás das grades, a cumprir uma pena de sete anos e meio. Ser pai, conta, foi o maior incentivo à mudança no seu estilo de vida; e estar privado dos seus deveres parentais é o que mais lhe custa. “Sinto que perdi a infância das minhas filhas e que todos os dias perco algo importante. Tenho uma hora por dia para ser pai, por telefone, e uma hora num dia do fim-de-semana para estar com elas na visita”, conta. Nas chamadas, que reparte ao longo do dia até perfazer o total de 60 minutos, tempo que lhe é permitido estar ao telefone, tenta pôr-se a par do que chama de “preocupações de pai”. De manhã, pergunta-lhes se já tomaram o pequeno-almoço, se levam tudo o que precisam na mochila. À tarde, quer saber como correu o dia, se têm trabalhos de casa: “Estou sempre a ligar, aos 15 minutos de cada vez, até os esgotar numa última chamada que tem de acabar às 22h00”.
O furto foi o crime que o levou à prisão. Cumpriu já metade da pena, primeiro no Estabelecimento Prisional (EP) do Linhó, em Sintra, e está, há cerca de um mês no EP de Torres Novas que a três dias de se assinalar o Dia do Pai abriu as portas a O MIRANTE para dar a conhecer uma ponta da realidade do que é ser pai na cadeia. Neste EP, onde todos estão a trabalhar em regime aberto no exterior ou no interior - como é o caso de João Lourenço, um dos responsáveis pela limpeza e pela horta -, muitos são pais de filhos que conhecem do lado de dentro os muros da prisão. É o caso das filhas de João. “Vêm sempre ver-me. O meu pai e irmãos querem vir, mas digo-lhes que fica para depois porque quero é estar com as minhas filhas. Assim que me vêem correm para os meus braços”, diz.
Hoje sabem que o pai está preso e porquê, mas nem sempre foi assim. Quando foi condenado, em 2023, optou por não contar às crianças de, na altura, quatro e seis anos. Pela vergonha que sentia e que ainda sente. “Pelo que possam pensar de mim”, confessa. Mas nas visitas à prisão - que dizia ser o seu local de trabalho - as perguntas foram surgindo, a curiosidade foi aumentando até que acabou por contar a verdade pela altura do Natal, em 2024. “Tive de dizer que errei e que estava a pagar por isso, e que esse erro o pai não vai voltar a cometer”. Não sabe se foi compreendido, mas sabe o amor que lhes tem e que elas lhe têm. “Sou um pai babado e elas são as meninas do papá. Sempre foi assim e continua a ser”, diz, lamentando apenas não poder participar tão activamente quanto gostaria na educação, responsabilidade que acaba por pesar na mãe das filhas com quem mantém uma relação há dez anos.
Para algumas crianças a vida do pai ainda é assim: uma fabulação que a mãe conta, corroborada pelo condenado quando recebe licença de saída para ir a casa. Está a trabalhar longe, sem folga ou férias. A fazer algo muito secreto ou muito importante. A narrativa muda mas o propósito é o mesmo: esconder a realidade em que se vive e o crime que se cometeu. “Sobretudo por vergonha, porque acabam por cair neles e têm vergonha de estar a dizer aos filhos o que fizeram, o que os levou até ali”, refere a directora do EP de Torres Novas, em funções desde Janeiro, Natércia Fortunato. Há também, conta, pais que não querem que os filhos entrem na prisão, sujeitando-se a eles e aos filhos a uma privação maior ao reduzirem o tempo de contacto presencial aos dias de licença. E há, ainda, os que por imposição legal estão proibidos de os contactar.

“Não estou a ser pai neste momento, apenas tenho uma filha”
É o caso de Marcelo Macedo, de 38 anos, natural do Brasil. Prefere deixar de fora da conversa o motivo que levou à sua condenação de cinco anos e três meses dando, em troca, abertura para falar sobre o que é ser pai na prisão e sem poder ter contacto directo com a filha. “Ser pai na prisão, estando privado da liberdade, é não ser. É não cumprir com as obrigações, é não estar presente quando é preciso, é não poder ajudar quando um filho precisa de ajuda”, reconhece. Preso há três anos, não alimenta a fantasia de recuperar o tempo que passou, consciente de que esse não volta. “O tempo passa e não se recupera. Quando estiver com ela vou tentar estar o mais presente na vida dela, se ela quiser”, vinca.
Marcelo Macedo sempre quis ser pai novo, de uma menina. Talvez, deduz, por ter crescido rodeado de irmãs e sem a presença do pai. Queria ser pilar, exemplo, e ter o tempo e a energia necessários para acompanhar as diferentes fazes de crescimento. A ausência de liberdade pelo crime que cometeu é, desde há três anos, uma barreira nesse caminho. “Eu era pai presente, confidente”, garante. Hoje não é mais um porto seguro para a filha, hoje com 16 anos, que “teve de ter acompanhamento psicológico para poder lidar” com o que tinha acontecido. Após a decisão do juiz, tentou “blindá-la” da dura realidade, mas cerca de três meses depois a mãe, de quem está separado, contou-lhe. “Foi um choque para ela, mas não podíamos esconder. Se tentasse fantasiar, mais cedo ou mais tarde ia descobrir e seria pior”, acredita.
Tanto os crimes como a forma como lidam com a paternidade na prisão são, nestes dois testemunhos, diferentes, mas há algo que ambos partilham: a convicção de que há algo mais a fazer pelos pais, ou melhor dizendo, pelos filhos que têm pais presos. “O sistema falha muito porque fomos nós que cometemos os nossos erros, não foram os nossos filhos. E privá-los de estarmos com eles é castigá-los também”, diz Marcelo. O que mais lhe custa, confessa, não é não poder estar presente na vida da filha. “Como nunca tive, sei a falta que faz um pai”, refere.

19 de Março é “um dia triste, que não dá vontade de sair da cela”

Para João Lourenço o dia 19 de Março é “um dia triste, que não dá vontade de sair da cela”. Custa-lhe pensar que nesse dia há pais que vão às actividades que a escola organiza, que saem mais cedo para ir buscar os filhos à escola e que ele nem a escola das filhas conhece. Na cela, onde a humidade manchou as paredes, guarda religiosamente fotografias, desenhos e trabalhos feitos pelas filhas, como um calendário de 2023 que fez durar, escrevendo a caneta os dias dos anos que se seguiram, até ao último dia de Dezembro de 2025. Era por esse calendário que costumava contar os dias que faltavam para ir para casa. “Deixei de contar, quanto mais contava mais custava a passar. Vou lá em Maio, três dias, e em Junho, cinco”.
Nessas visitas a casa, em Torres Novas, de onde é natural, consegue por momentos esquecer-se da prisão. “Vamos ao cinema, às compras, estamos apenas em casa, juntos”. Mas é difícil, admite, não se lembrar ou ser lembrado. “As minhas filhas perguntam-me quando fico em casa, quando as vou poder ir buscar à escola. Digo-lhes que está quase... é complicado”. A cumprir pena de prisão até 2030 alimenta o sonho de as levar à Disneyland. “Não sei onde é, nem conheço, mas elas pedem para ir e um dia vou lá levá-las”, remata.

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