Hospital VFX sem urgências de ginecologia e obstetrícia e fecho da maternidade parece inevitável
Autarcas e populações criticam desmantelamento de serviços no Hospital Vila Franca de Xira. Ausência da administração do hospital no protesto promovido pelas 12 comissões de utentes não passou despercebida e gerou críticas. Presidente do município teme que seja a antecâmara para encerrar de vez a maternidade.
Um hospital “de joelhos”: foi desta forma que os utentes e os autarcas descreveram o que está a acontecer no Hospital Vila Franca de Xira, que viu na segunda-feira, 16 de Março, as suas urgências de ginecologia e obstetrícia encerrar de vez para serem centralizadas no Hospital Beatriz Ângelo, em Loures. Uma decisão do Ministério da Saúde que não agradou à comunidade e mobilizou na manhã de sábado, 14 de Março, um protesto convocado pelas 12 comissões de utentes dos cinco concelhos servidos pelo hospital: Vila Franca de Xira, Azambuja, Alenquer, Arruda dos Vinhos e Benavente. Foram mobilizadas 150 pessoas à porta da unidade hospitalar, incluindo autarcas dos vários concelhos, para alertar para os impactos que a medida vai ter na comunidade.
“Estamos a assistir ao desmantelar do que era um excelente hospital. Os autarcas e a população lutaram muito para ter um hospital destes e com um serviço de referência. Agora as nossas populações vão ficar a 50 km da maternidade. É um retrocesso enorme de qualidade de vida que não podemos aceitar”, criticou a O MIRANTE João Nicolau, presidente da Câmara de Alenquer. Também Marina Tiago, vice-presidente da Câmara de Vila Franca de Xira, defendeu que o encerramento das urgências vai ser lesivo para a comunidade e criticou o facto de a decisão de encerramento ter sido tomada sem que os autarcas tenham sido ouvidos previamente.
Aos olhos dos manifestantes também não passou ao lado o facto da nova administração da Unidade Local de Saúde (ULS) Estuário do Tejo, que tutela o hospital, não ter estado presente no protesto ao lado dos utentes. “Já sabiam disto e ficaram caladinhos. É tudo um esquema para retirar serviços do hospital”, critica Alberto Campos, utente.
O presidente da Câmara de VFX, Fernando Paulo Ferreira, acusa o Governo de querer acabar por encerrar a maternidade do hospital depois de encerradas as urgências de obstetrícia e ginecologia, decisão que já tinha considerado absurda. “A ministra da Saúde está focada em fechar as urgências e diminuir o número de partos. Não tenho grandes dúvidas de que o objectivo da ministra é encerrar a maternidade do Hospital VFX”, critica Fernando Paulo Ferreira.
Os manifestantes aprovaram uma moção a enviar ao primeiro-ministro, ministra da Saúde e aos autarcas dos concelhos servidos pelo hospital exigindo a manutenção do funcionamento das urgências de obstetrícia e um investimento na unidade de saúde para assegurar o seu funcionamento. Exigem também a valorização dos profissionais de saúde, a contratação dos profissionais necessários para assegurar o serviço em VFX e medidas que garantam o acesso de todas as grávidas a ecografias e exames prescritos pelos médicos para defesa da saúde da mãe e da criança.
Autarcas saem insatisfeitos de reunião com ministra
Na segunda-feira, 16 de Março, os autarcas dos municípios abrangidos pelo Hospital Vila Franca de Xira foram recebidos pela ministra da Saúde, Ana Paula Martins, e saíram insatisfeitos da reunião. Apesar de ter sido garantido que o encerramento é provisório e que a medida será reavaliada dentro de seis meses, os autarcas fizeram chegar à governante as suas queixas perante o fecho das urgências obstétricas. “A preocupação que temos é constante, com a situação suplementar de apenas o concelho de VFX fazer parte da AML (Área Metropolitana de Lisboa). Todos os outros estão muito distantes do hospital de Loures. Esperamos que esta solução não venha a meter em causa o funcionamento da maternidade do hospital”, criticou Fernando Paulo Ferreira, presidente da Câmara de Vila Franca de Xira.
O autarca diz que foi positivo a governante ter ouvido os autarcas, o que ainda não tinha acontecido, mas admitiu que saíram desagradados com o que ouviram e por terem sabido do encerramento pela comunicação social. “Não será nem amanhã nem daqui a seis meses que o Serviço Nacional de Saúde vai conseguir atrair todos os obstetras necessários para reabrir estas urgências. Com as dificuldades que tem, a ministra não nos apresentou nenhuma solução para inverter esta situação nos próximos tempos e, portanto, a nossa preocupação mantém-se”, avisou Fernando Paulo Ferreira.
O autarca lamentou que o Governo aposte “na rapidez dos bombeiros e do INEM” para fazer chegar as grávidas à urgência de Loures a tempo, mas considerou que isso revela “uma grande desprotecção das grávidas que mais precisam”, numa altura em que, disse, “têm nascido crianças nas ambulâncias e quanto mais longe estiver a urgência obstétrica, mais esses casos se vão repetir”, criticou. Fernando Paulo Ferreira garante que os cinco concelhos vão continuar a contestar o encerramento e esperam que a petição em curso possa reunir as assinaturas necessárias para levar o assunto a discussão no Parlamento.


