Sónia Machado e Raquel Pimenta combatem o mito de que a matemática é um bicho de sete cabeças
A 14 de Março celebrou-se o Dia Internacional da Matemática e do Pi, data que destaca o papel desta disciplina no quotidiano e na construção do raciocínio lógico. Para assinalar a efeméride, O MIRANTE falou com as professoras Sónia Machado e Raquel Pimenta, que têm vindo a dinamizar actividades práticas e lúdicas nas suas escolas. Jogos, desafios e exemplos do dia-a-dia ajudam a mostrar aos alunos que a matemática não é um “bicho de sete cabeças”, mas uma ferramenta útil e divertida.
A sociedade interiorizou que a matemática é difícil e a disciplina ainda é vista como um “bicho de sete cabeças”. A opinião é partilhada por duas professoras de matemática com quase 30 anos de carreira. A actual geração de alunos, habituada ao telemóvel e a tudo o que é imediato e rápido, coloca muitas vezes entraves às matérias desta disciplina, que exigem que se pense e se raciocine para conseguir resolver os exercícios propostos.
A dar aulas a duas turmas do 7.º ano e a duas do 9.º ano na Escola Básica e Secundária Dom Martinho Vaz de Castelo Branco, na Póvoa de Santa Iria, Sónia Machado lamenta que muitas pessoas ainda encarem a matemática como um mal de família, em que, se o pai e a mãe nunca foram bons à disciplina, os filhos também não vão ser. “É um disparate que as famílias vejam isto assim e vão deixando a matemática para trás. Os alunos chegam ao 9.º ano e querem fazer uma escolha para o 10.º ano, falta-lhes a matemática e deixam de ir para uma área de que gostam só porque tem a disciplina”, diz a docente.
A preguiça de pensar está a prejudicar as aprendizagens. Segundo a docente, a matemática deve ser incentivada logo desde o ensino pré-escolar, não cabendo só à escola esse incentivo, mas sobretudo em casa, com os pais. Incentivar a construção de legos, puzzles e jogos didácticos pode ser uma ajuda para que, quando as crianças entrem no 1.º ciclo do ensino básico já estejam habituadas a pensar. “Porque a matemática dá trabalho. Recebo alguns alunos no 7.º ano que já têm a matemática completamente destruída. Depois, para os agarrar, é preciso ir mais atrás e desconstruir muita coisa, e muitos não querem sequer tentar”, relata.
É possível recuperar alunos
Ainda assim, Sónia Machado tem casos de sucesso. “Não é impossível recuperar alunos. Tenho um caso que é o melhor de todos para mim, que apanhei do 7.º ao 9.º ano. Uma aluna que não gostava de matemática e que agora é professora de matemática. Cada vez que me vê diz que é professora por minha causa, mas não, é por causa dela que ganhou o gosto”, conta.
Sobre a Inteligência Artificial (IA), diz que pode ser uma ajuda, desde que usada correctamente, como, por exemplo, para ajudar os alunos a chegar a uma resposta e não para resolver o problema em si. “O problema é para descobrir uns números e, às tantas, eu preciso de me lembrar o que é o número primo e não me lembro. Posso usar a IA para me recordar se aquilo é um entrave ao meu raciocínio, mas não para resolver o exercício”, sublinha.
Para conseguir cativar os alunos, Sónia Machado recorre muitas vezes a exemplos do quotidiano, onde as aprendizagens podem ser usadas, e para afastar o argumento de que o que se aprende não terá uso prático no futuro. “Já pedi para abrirem ‘sites’ de lojas que têm percentagens em promoção e peço para verem se está certo e, frequentemente, conseguem detectar que é enganoso. Ou peço para trazerem talões das compras dos pais para analisarem o IVA ou falo nos bancos... Dou exemplos da vida prática”, refere, acrescentando que o mais importante é os alunos não desistirem dos sonhos por causa da matemática e acreditarem que são capazes.
Matemática não pode ser vista como um fracasso
Raquel Pimenta também lecciona a disciplina do 7.º ao 9.º ano na Escola Alexandre Herculano, em Santarém. A O MIRANTE considera que o medo dos alunos em relação à matemática não começa no 1.º ciclo, mas quando começam a errar no ensino básico e a encarar isso como um fracasso à disciplina. “Normalmente, costumo dizer-lhes: se não há dúvidas, não há conhecimento. Alguns alunos aceitam muito cedo que não são capazes, desistem mentalmente, a nível emocional, e não porque não são capazes a nível intelectual. Os professores têm de trabalhar a confiança nos alunos e mostrar que eles conseguem e que errar faz parte desse processo”, explica.
Um dos argumentos que usa para cativar os alunos é que a matemática exercita o cérebro e que vai permitir desenvolver competências futuras. Usa jogos, plataformas, aulas digitais e ‘quizzes’ e procura ligar os problemas a factos reais. A professora defende a redução dos conteúdos no primeiro ciclo e reflectir sobre o que é ou não importante os alunos reterem nessa fase. “Por exemplo, as fracções são um conteúdo que eles aprendem no primeiro ciclo e que para eles é extremamente difícil, porque a matemática tem este problema: é abstracta. Em vez de trabalhar tanta coisa, trabalhar menos, mas de uma forma mais consistente e consolidada”, reitera.
Com os mais pequenos, jogar jogos como o Monopólio pode ser uma ajuda ao raciocínio lógico e aprender matemática a brincar. Mais tarde, há muitos pais que já não têm capacidade de ensinar os filhos, mas também não é isso que os professores pedem. “É só que orientem o estudo, que é o que nós tentamos fazer também. Se em casa não houver um controlo é mais difícil”, alerta.
Escolas assinalam Dia da Matemática
Para assinalar o Dia Internacional da Matemática e do Pi, a Escola Alexandre Herculano expôs trabalhos alusivos à disciplina, realizou a caminhada dos números e promoveu um lanche e almoço temático. Também esta data não passou ao lado na Escola Básica e Secundária Dom Martinho Vaz de Castelo Branco, que realizou um almoço temático e diversas actividades com os alunos, envolvendo os professores.


