Chouto deu voz à paisagem da Chamusca em sessão participativa do projeto TOPIO
Moradores, técnicos e investigadores reuniram-se no Chouto para identificar prioridades de intervenção na paisagem da Chamusca, numa sessão promovida pelo projecto europeu TOPIO. O encontro destacou problemas como o despovoamento, a perda de saberes tradicionais, a desvalorização dos produtos locais e os impactos da instalação de energias renováveis.
No âmbito do projecto europeu TOPIO – Participação Pública na Observação da Paisagem, realizou-se no Chouto uma sessão participativa dedicada às prioridades de intervenção na paisagem da Chamusca. O encontro reuniu moradores, técnicos e investigadores num exercício colectivo de análise sistémica dos problemas do território rural. A metodologia adoptada não se limitou à identificação de problemas isolados. O objectivo foi relacioná-los entre si, compreender de que forma se encadeiam e perceber em que pontos uma intervenção pode gerar maior impacto. Segundo os participantes, existe uma lógica circular: sem trabalho as pessoas partem, sem população o território perde capacidade produtiva e sem organização colectiva os produtores ficam isolados, perdem poder de negociação e os produtos locais, como a cortiça ou o queijo artesanal, desvalorizam.
Durante a sessão foi recordado que, há algumas décadas, a região dispunha de uma rede activa de pastores e apicultores, cuja actividade contribuía também para a limpeza das matas. O desaparecimento dessas práticas teve consequências visíveis na paisagem e no aumento do risco de incêndio. O debate incidiu ainda sobre a perda de saberes tradicionais, como o conhecimento das épocas agrícolas, da extracção de cortiça ou das técnicas de poda. Esta quebra foi apontada como um corte geracional, agravado pela desvalorização do ensino técnico. As energias renováveis estiveram igualmente em discussão. Sem pôr em causa a transição energética, os participantes criticaram a instalação de eólicas e painéis solares sem regras claras nem envolvimento das populações, apontando impactos na biodiversidade, na qualidade de vida e no próprio despovoamento.
Foi também sublinhada a dificuldade de acesso aos instrumentos de planeamento, como os planos florestais, os planos directores municipais e os planos de combate a incêndios, considerados excessivamente técnicos, apesar de serem de cumprimento obrigatório para os proprietários. A sessão terminou com a apresentação do livro “Paisagem e Identidade: a Chamusca entre o Campo e a Charneca”, que identifica oito unidades de paisagem no concelho, cruzando análise técnica com contributos da população.


