Sociedade | 25-03-2026 18:00

Apneia do sono continua subdiagnosticada em Portugal

Apneia do sono continua subdiagnosticada em Portugal
Jorge Dentinho sublinha a importância de tratar a apneia do sono que afecta milhares de portugueses, muitos ainda sem diagnóstico - Foto: Clinica da Luz VFX

Assinalou-se a 13 de Março o Dia Mundial do Sono, data que pretende chamar a atenção para a importância de um descanso de qualidade. A efeméride alerta também para as doenças do sono, como a apneia obstrutiva, que afecta milhares de pessoas. O MIRANTE falou com o otorrinolaringologista Jorge Dentinho, que alerta para as consequências desta síndrome.

A apneia do sono continua subdiagnosticada em Portugal, em parte devido às dificuldades no acesso a exames de diagnóstico no Serviço Nacional de Saúde. Esta realidade faz com que muitos casos não sejam identificados atempadamente, apesar do impacto que a doença pode ter na saúde e na qualidade de vida. “Os médicos de família não conseguem pedir directamente uma polissonografia, salvo raras excepções, mas não é um exame acessível. Quando o médico de família suspeita desta patologia, tem de pedir uma consulta de Otorrinolaringologia ou Pneumologia para ser solicitado o exame poligráfico do sono a nível hospitalar. A nível privado, felizmente, esta barreira não existe”, explica Jorge Dentinho, especialista em Otorrinolaringologia no Hospital da Luz Clínica Vila Franca de Xira.
Os últimos dados apresentados pela Direcção-Geral da Saúde, em 2014, indicam que a prevalência de apneia obstrutiva do sono (AOS) diagnosticada em portugueses com 25 ou mais anos foi de 0,89%. A prevalência é superior nos homens, atingindo 1,47%, e aumenta na população entre os 65 e os 74 anos, onde se regista um valor de 2,35%.
Obsidade e alterações anatómicas são factores de risco
Segundo Jorge Dentinho, a apneia caracteriza-se por pausas respiratórias durante o sono, com duração mínima de 10 segundos, detectadas em exame específico. Estas interrupções podem ser obstrutivas, quando existe bloqueio da via aérea apesar da tentativa de respirar, ou resultar de diminuição parcial da passagem do ar, situação que pode levar a uma redução dos níveis de oxigénio no sangue.
O ressonar intenso, as pausas respiratórias observadas por quem dorme ao lado, o sono não reparador, dores de cabeça matinais, cansaço persistente, dificuldades de concentração e falhas de memória estão entre os principais sinais de alerta. Em muitos casos, pode ainda surgir sonolência excessiva durante o dia, com episódios de adormecimento involuntário. “Esses adormecimentos podem ter consequências graves, sobretudo em pessoas que conduzem, como os motoristas, ou que operam máquinas”, refere o médico, sublinhando o risco acrescido de acidentes.
A AOS está associada a factores de risco como a obesidade, que pode favorecer o estreitamento das vias respiratórias. Contudo, pode também surgir em pessoas não obesas, devido a alterações anatómicas, como amígdalas aumentadas, palato comprido ou recuo da mandíbula. Pode afectar homens e mulheres e surgir em qualquer idade, sendo mais frequente com o avançar dos anos.

Impacto na qualidade de vida
Para além do impacto na qualidade do sono, a apneia pode ter repercussões cardiovasculares e metabólicas, aumentando o risco de hipertensão arterial, resistência à insulina, diabetes e arritmias cardíacas. A redução repetida do oxigénio durante a noite contribui para estas alterações. “Uma pessoa com uma apneia ligeira pode estar muito sintomática, ter muito cansaço durante o dia e dizer que não consegue funcionar. E uma pessoa com apneia grave pode ter consequências a nível metabólico, ter uma hipertensão difícil de controlo, mas que no seu dia-a-dia não sente muitas consequências”, explica Jorge Dentinho.
O diagnóstico é realizado através de exames específicos do sono, como a poligrafia ou a polissonografia, que permitem avaliar os parâmetros respiratórios e a oxigenação durante a noite. O tratamento pode incluir ventiloterapia com pressão positiva (máscara colocada durante a noite), dispositivos de avanço mandibular ou, em casos seleccionados, intervenção cirúrgica, sempre de acordo com a avaliação médica.

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