Sociedade | 25-03-2026 12:06

Unidades de saúde com gestão privada em Azambuja deixam equipa do SNS num impasse

Unidades de saúde com gestão privada em Azambuja deixam equipa do SNS num impasse
Armando Martins do Movimento Cívico Pela Saúde em Azambuja

Centros de saúde privados previstos para o concelho de Azambuja poderão travar avanço da USF-B que tem equipa constituída e que há muito é aguardada. Município e Movimento Cívico dizem estar a acompanhar evolução com preocupação.

A abertura de um concurso público internacional, no valor de oito milhões de euros, para a criação de duas unidades de saúde familiar (USF) modelo C, isto é, geridos pelo sector social cooperativo ou privado, estão a causar apreensão em Azambuja, concelho onde se prepara há alguns meses a entrada em funcionamento de uma USF modelo B, com equipa de médicos de família e enfermagem constituída que iria dar resposta a sete dos 18 mil utentes inscritos.

“Num concelho onde estivemos tantos anos sem médicos e agora que temos a possibilidade de ter uma equipa do Serviço Nacional de Saúde (SNS) para funcionar há possibilidade de se ir embora se vierem para aqui duas unidades- C porque cobrem a totalidade de utentes do concelho. Os médicos que estão aqui serão transferidos para outros locais”, afirmou a O MIRANTE o porta-voz do Movimento Cívico Pela Saúde em Azambuja, Armando Martins.

O representante vinca que o Movimento Cívico não está contra a criação de unidades geridas pelo sector privado mas por, neste caso, porem em causa o avanço de uma equipa de profissionais do SNS. “O que faria sentido ter era uma unidade-B para a qual já há equipa e uma C para complementar”, diz.

Caso a Unidade Local de Saúde (ULS) Estuário do Tejo avance com a implementação de duas USF-C, tendo em conta que foram lançados dois concursos públicos internacionais para este concelho, Armando Martins alerta que não sairão apenas os médicos do SNS, mas a equipa de enfermeiros e funcionários “serão transferidos para outros centros de saúde”. Além disso, alerta, “se houver um problema contratual e ao fim de um ano ou dois o acordo terminar” Azambuja, que actualmente tem um médico de família, “ficaria pior do que o que está”.

A vereadora com o pelouro da Saúde, Ana Coelho, diz em declarações a O MIRANTE que esta é uma “situação que preocupa muito o município” porque ao “serem constituídas duas unidades modelo C vão cobrir a totalidade dos utentes sem médico de família” e, desse modo, “estará em causa a entrada em funcionamento da USF-B”, no qual a autarquia se empenhou tendo inclusive aprovado um regulamento de incentivos.

“Fomos apanhados de surpresa e pedimos à senhora ministra da Saúde que estivesse atenta a esta questão”, afirma, sublinhando que embora as USF-C resolvam o problema da falta de médicos “a qualquer momento podem sair” o que deixaria o concelho sem resposta aos cuidados de saúde primários.

Ana Coelho revelou ainda que o presidente do município reuniu recentemente com a equipa que se formou para permitir a criação de uma USF-B que se mostrou “apreensiva” e que aguarda o desfecho dos concursos lançados para saber se entrará ou não em funções. Algo que estava previsto acontecer no mês de Abril. O MIRANTE questionou a ULS Estuário do Tejo sobre o futuro da USF-B no concelho de Azambuja mas ainda não obtivemos resposta.
O modelo C assenta na contratualização com privados para gerir unidades durante cinco anos, com pagamento baseado em objectivos e indicadores de desempenho. No modelo desenhado Governo considera que as USF C não representarão mais custos para o Estado do que as modelo B e permitirão captar profissionais que estão fora do SNS.
No concelho de Azambuja, onde 91% dos utentes não tem médico de família, cada uma das USF C- uma na sede de concelho, no centro de saúde e outra destinada às restantes unidades do concelho- terá capacidade para prestar cuidados de saúde a cerca de nove mil utentes.

Preço base aquém de custos actuais com a unidade pública

O Health News refere numa publicação que das respostas prestadas aos pedidos de esclarecimento apresentados por três concorrentes – LUSIADAS CENTRO, S.A., UpHill, S.A. e EHC – European Healthcare City, Unipessoal, Lda ao concurso público internacional lançado pela ULS Estuário do Tejo para a prestação de cuidados de saúde e a gestão de USF modelo C em Azambuja, ressalta a informação relativa à estrutura de custos atual da UCSP Azambuja, que em 2025 ascendeu a 1.062.763,50 euros. Este valor decompõe-se em consumos (104.423,07 euros), fornecimentos e serviços (293.250,35 euros), despesas com pessoal (662.507,43 euros) e depreciações (2.582,65 euros). O júri fez questão de sublinhar, no entanto, que as despesas com instalações, manutenção e serviços hoteleiros estão a cargo do município de Azambuja, não dispondo a ULS desses dados.

O preço base fixado para o Lote 1 – UCSP Azambuja Sede, para um período de cinco anos, é de 4.083.850,55 euros. No primeiro ano, o valor é de 806.699,27 euros e, a partir do segundo ano, passa para 819.287,82 euros. Isto significa, sublinha o órgão de comunicação especializado em Saúde que, em termos anuais, a entidade privada que vier a gerir a unidade receberá menos cerca de 240 mil euros do que aquilo que actualmente custa a UCSP pública. E deste montante terá ainda de suportar as despesas com instalações próprias, equipamentos e amortizações — encargos que, no modelo actual, não são suportados pela unidade pública. Acresce ainda a cláusula que permite ao Estado cessar unilateralmente o contrato nos primeiros 12 meses, sem necessidade de justificação e sem qualquer compensação pelos investimentos realizados.

De acordo com a mesma publicação a LUSIADAS CENTRO, S.A., uma das concorrentes, questionou sobre a obrigatoriedade de utilização do actual imóvel da UCSP Azambuja e a possibilidade de recorrer a instalações próprias já licenciadas, como o Hospital Lusíadas Campera. Ao que o júri respondeu que “não existe obrigatoriedade de usar o imóvel actual, sendo admissível a utilização de instalações próprias já licenciadas para a prestação de cuidados, desde que situadas no concelho de Azambuja”.

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