Sociedade | 26-03-2026 12:00

João Moura fala em novo ciclo em Ourém mas Luís Albuquerque ainda tem um mandato por cumprir

João Moura fala em novo ciclo em Ourém mas Luís Albuquerque ainda tem um mandato por cumprir
João Moura - foto O MIRANTE

Ainda faltam quase quatro anos para as próximas eleições autárquicas e João Moura já fala em “novo ciclo”, assumindo de forma explícita a ambição de chegar à presidência da Câmara de Ourém. O timing levanta dúvidas políticas e institucionais, uma vez que o secretário de Estado é o actual presidente da assembleia municipal.

A recente entrevista de João Moura ao “Notícias de Ourém” levanta mais perguntas do que respostas e abre um debate político que já mexeu com o actual contexto autárquico do concelho. Alguns dias depois de João Moura ter sido eleito presidente da concelhia do PSD, numa lista única, há militantes que não entendem as razões para o actual secretário de Estado da Agricultura confirmar que está a preparar a candidatura à câmara municipal tão precocemente e ainda com um mandato por cumprir na presidência de Luís Albuquerque. O também presidente da Assembleia Municipal de Ourém assume que o projecto que tem em mente não se limita a um mandato interno de dois anos na concelhia, mas aponta já para uma continuidade de, pelo menos, quatro anos, o que indica que não quer adversários na corrida à câmara.
Para alguns militantes com quem O MIRANTE conversou, o problema não está apenas na legítima ambição política, mas sim no momento escolhido para a assumir e no enquadramento em que o faz. Faltam ainda quase quatro anos para as próximas eleições autárquicas e a equipa liderada por Luís Albuquerque, actual presidente da Câmara de Ourém, tem ainda um longo caminho para percorrer até ao fim do mandato. Falar já de “novo ciclo”, como faz João Moura, “não deixa de soar precipitado e até desajustado da realidade política e administrativa do concelho”, refere ao nosso jornal um dos militantes que também votou em João Moura para líder da concelhia.
Luís Albuquerque e o executivo municipal continuam em funções, com responsabilidades concretas, obras em andamento, promessas por cumprir e decisões para tomar. Ao antecipar o debate sucessório com tanta antecedência, João Moura “parece colocar o foco mais na construção da sua candidatura do que nas necessidades imediatas do concelho”. “A questão do timing torna-se, por isso, incontornável. Que pertinência tem abrir já um discurso de sucessão quando ainda falta um mandato inteiro para cumprir?”, questiona o dirigente.
Há ainda outro dado que torna esta posição mais delicada. João Moura não é apenas secretário de Estado nem apenas um militante influente do PSD. É, neste momento, presidente da Assembleia Municipal de Ourém, o principal órgão fiscalizador da actividade da câmara. Esse cargo exige equilíbrio institucional, sentido de responsabilidade e, acima de tudo, imparcialidade. Quem preside à assembleia municipal deve estar acima da disputa executiva, garantindo a separação entre o escrutínio político e a ambição pessoal, refere. “Não está em causa a legalidade da pretensão, mas a leitura política que dela resulta. A partir do momento em que se coloca como rosto de um “novo ciclo”, dificilmente conseguirá escapar à suspeita de que o papel institucional que hoje desempenha passa a ser observado à luz dos seus interesses futuros”, afirma.

À margem/opinião

As sombras de João Moura

João Moura voltou a colocar-se no centro do palco político, por anunciar cedo demais a sua vontade de ser presidente da Câmara de Ourém. Não se sabe o que pensará Luís Albuquerque, líder do município, desta atitude do seu camarada, mas com o seu perfil pessoal e político não deverá ter gostado. Luís Albuquerque é um homem discreto, metódico, rigoroso, que gosta das coisas no seu lugar. Ter João Moura a anunciar um novo ciclo no município quando Luís Albuquerque ainda tem quase quatro anos de trabalho pela frente é, no mínimo, um golpe baixo. Ainda por cima vindo de quem vem: João Moura tem um percurso carregado de polémicas, suspeitas e episódios pouco compatíveis com a exigência de transparência que se impõe a quem exerce funções públicas de topo. O contrário de Luís Albuquerque que, inclusive, numa entrevista a O MIRANTE, disse não gostar de “jantaradas e negociatas”.
O governante João Moura tem acumulado ao longo dos anos conflitos internos no partido, notícias sobre investigações judiciais, dúvidas em torno de negócios privados e ainda episódios de alegado comportamento impróprio no exercício de funções. O ruído mediático, que o secretário de Estado tanto gosta, é precisamente aquilo de que Luís Albuquerque foge. João Moura deu um tiro no pé e fez parecer o PSD de Ourém, e já agora Luís Albuquerque, muito pequenino ao pé do seu estatuto. Se houvesse oposição interna no partido dos “laranjas” esta declaração de intenções de João Moura não teria caído em saco roto.

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