Santarém distinguiu personalidades e instituições no feriado municipal
Salgueiro Maia e Veríssimo Serrão são os primeiros distinguidos com as Chaves de Ouro de Santarém, o mais alto galardão atribuído pelo município. Convento de São Francisco encheu para assistir à entrega dos galardões.
As Chaves de Ouro da Cidade de Santarém, o mais alto galardão instituído pelo município, foram entregues pela primeira vez no feriado municipal de 19 de Março, distinguindo a título póstumo o historiador Joaquim Veríssimo Serrão e o capitão de Abril Fernando Salgueiro Maia. Na cerimónia promovida pela Câmara de Santarém, que encheu o Convento de São Francisco, o presidente do município, João Leite, e o presidente da assembleia municipal, Gustavo Reis, entregaram condecorações de diferentes graus a várias instituições e personalidades.
A deliberação com os nomes a distinguir foi aprovada à porta fechada no final da reunião do executivo camarário de 16 de Março. Foi deliberado atribuir quatro medalhas de ouro. Os escolhidos foram o ex-presidente da câmara Ricardo Gonçalves; o ex-presidente da assembleia municipal Joaquim Neto; o professor e historiador Martinho Vicente Rodrigues, também director do Centro de Investigação Joaquim Veríssimo Serrão; e, a título póstumo, Álvaro Pinto Correia, engenheiro civil com raízes em Tremês, que foi secretário de Estado da Construção Civil e da Habitação e Urbanismo, administrador da Caixa Geral de Depósitos, entre outros cargos.
A Medalha de Honra do Município foi atribuída a Carlos Beato, antigo Capitão de Abril e camarada de armas de Salgueiro Maia. Já as Medalhas de Mérito distinguiram o jovem actor João Arrais; o Círculo Cultural Scalabitano; a Livraria Aqui Há Gato; o artista Herman José; o jornal Correio do Ribatejo; o restaurante a Taberna do Quinzena; o fundador e presidente do Vitória de Santarém António Pardelhas; o médico Ângelo Nobre; e, a título póstumo, a professora Mariana Viegas.
As medalhas de Altruísmo galardoaram o Lar de Santo António da Cidade de Santarém e as Misericórdias de Alcanede, Pernes e Santarém. “A atribuição destas condecorações foi decidida pela excelência das personalidades e entidades nomeadas, atendendo ao inestimável contributo dado aos Munícipes, à Cidade e a todo o concelho de Santarém”, justificou o município.
Tarde de emoções, de agradecimentos e de exaltação a Santarém
Um ponto comum a todos os discursos foi o de agradecimento não só a quem propôs e atribuiu as distinções, mas também à família, amigos, colegas, colaboradores, utentes ou clientes, consoante as entidades distinguidas. Ricardo Gonçalves, Joaquim Neto, Ângelo Nobre, António Pardelhas e Martinho Vicente Rodrigues foram alguns dos homenageados que deixaram bem vincada a importância da família como porto seguro e motor de motivação.
A ligação às origens ficou igualmente evidente em diversos discursos, com o jovem actor João Arrais a partilhar com humor as horas que passou a discutir com os seus amigos lisboetas que o melhor bolo do país não é o pastel de Belém, mas o pampilho de Santarém. Já o proprietário da emblemática Taberna do Quinzena, Fernando Batista, quer estender a marca, que já vai para a quinta geração, e a gastronomia ribatejana a todo o país. E Carlos Beato fez questão de partilhar a medalha com Santarém, “Capital da Liberdade”, com a antiga Escola Prática de Cavalaria e com o coronel Garcia Correia, ali presente, bem como com o “comandante Fernando José Salgueiro Maia”.
Salgueiro Maia foi mais tarde evocado pela sua viúva, Natércia Maia, que destacou o sentido de dever e de serviço do marido, o seu amor a Santarém e ao país e a causas como as da Liberdade e a Democracia. Destacou a frontalidade do militar e partilhou um episódio em que, durante uma visita de Mário Soares a Santarém nos tempos conturbados do pós-revolução, o então jovem capitão não deixou nada por dizer e, inclusivamente, criticou o proeminente político socialista por, amiúde, “fazer pisca para a esquerda e virar à direita”.
Joaquim Veríssimo Serrão foi lembrado pelo seu filho, também historiador, Vítor Serrão, que confessou a enorme honra em poder viver esse momento de homenagem à memória de seu pai, “figura marcante como pedagogo, como académico, como investigador e como homem de cultura”. E disse não ter dúvidas que o seu pai, que teve muitas homenagens na vida, viveria esse momento com particular alegria. “Vivemos numa época de guerras, de ódios e de desmemória, e a História é, como nunca foi até agora, uma disciplina muito importante por ajudar a preparar um futuro mais condigno e mais humanista”, defendeu.
Familiares de Álvaro Pinto Correia e Mariana Viegas também receberam as distinções que contemplaram os seus entes queridos. Hélia Viegas disse que a sua mãe foi uma mulher extraordinária, muito à frente do seu tempo, e revelou a sua disponibilidade para ceder à cidade o espólio do seu pai, Francisco Pereira Viegas, que foi farmacêutico e liderou a primeira comissão administrativa que geriu a Câmara de Santarém após o 25 de Abril.
O médico Ângelo Lucas Nobre realçou a sua ligação umbilical a Amiais de Baixo, de onde é natural, e a Santarém, terras onde aprendeu a olhar os outros com sentido de comunidade. Recordou os pais e os valores que lhe transmitiram, de respeito pelo próximo, de trabalho honesto e de procurar sempre ser útil aos outros. “A medicina foi muito mais do que uma profissão, foi uma vocação e um compromisso com as pessoas”, afirmou o médico, que, muitas vezes fora de horas, sempre esteve disponível para os seus doentes, a quem agradeceu pela confiança depositada.
Servir os outros é a forma mais nobre de viver
O apego às raízes foi também destacado pela filha de Álvaro Pinto Correia, que discursou em nome do pai. O conceituado engenheiro e gestor trabalhou em vários pontos do mundo e esteve ligado a inúmeros projectos, entidades e empresas, mas nunca esqueceu as raízes. Santarém era o seu porto seguro, o concelho do seu coração. As filhas Cristina, Cristiana e Joana receberam o prémio e lembraram-no como “um pai, um marido e um avô extraordinário” e um homem dedicado ao serviço público, íntegro, que amava genuinamente a sua terra, “com a convicção inabalável de que servir os outros era a forma mais nobre de viver”.
Joaquim Neto e Ricardo Gonçalves também receberam a Medalha de Ouro e, para além do seu percurso autárquico, partilham também a importância que dão à família como aliada de peso na missão de quem se dedica à causa pública. Joaquim Neto assumiu-se como um homem pragmático que gosta de aprender com os outros e ajudar a resolver problemas. Ricardo Gonçalves destacou os tempos difíceis que viveu quando assumiu a presidência da Câmara de Santarém, em 2013, enfrentando uma situação financeira complicada, e o trabalho de equipa que devolveu a estabilidade à autarquia. E, além de realçar o papel da esposa e da mãe na sua vida, não esqueceu a sua ligação próxima à população, referindo que os seus antecessores são habitualmente tratados pelos apelidos de família e ele é conhecido simplesmente por Ricardo.
Valores como os do altruísmo e da solidariedade foram destacados nos discursos dos responsáveis do Lar de Santo António da Cidade de Santarém, Susana Pita Soares, e das Misericórdias de Alcanede, Pernes e Santarém, Wanda Mendo, Manuel Maia Frazão e José Miguel Noras, respectivamente. “Uma cidade que não cuida das suas crianças, é uma cidade que não acredita no seu futuro”, declarou Susana Pita Soares, acrescentando que o prémio pertence, acima de tudo, a todas as crianças e jovens da instituição.
A cultura também esteve em destaque, com a Livraria Aqui Há Gato a ver reconhecido o trabalho de 18 anos que tem realizado como contadora de histórias e divulgadora da leitura junto do público mais novo. Um galardão que teve dedicatória ao popular actor Carlos Oliveira, também conhecido por Chona, que continua a inspirar Sofia Vieira, sem esquecer as crianças que constituem o seu público privilegiado e os seus gatos.
O Círculo Cultural Scalabitano e o jornal Correio do Ribatejo foram distinguidos pela segunda vez pelo município e Vítor Murta, presidente da associação cultural, garantiu que, 70 anos depois desse primeiro galardão, continuam com a mesma missão, a mesma energia criadora e a mesma vontade de servir Santarém através da cultura, como fizeram os que os antecederam. João Paulo Narciso, director do jornal que já vai nos 135 anos de vida, afirmou que tem como objectivo celebrar o 150.º aniversário do periódico.
Santarém cantou os parabéns a Herman José
O humorista Herman José celebrou 72 anos de vida na quinta-feira, 19 de Março, dia em que foi também agraciado pela Câmara de Santarém com a Medalha de Mérito, numa cerimónia onde foram distinguidas outras personalidades e instituições. O artista tinha agendado para essa noite um espectáculo nas Festas de São José, em Santarém, que acabou por ser adiado para o domingo seguinte devido às condições meteorológicas. Não faltou o cantar dos parabéns e o indispensável bolo, perante os aplausos da numerosa plateia.


