Actividade física traduzida em refeições para ajudar alunos carenciados
Projecto pioneiro da Escola Superior de Desporto de Rio Maior angariou mais de mil refeições para alunos desse estabelecimento de ensino.
A iniciativa “Movimento em Alimento”, promovida pela Escola Superior de Desporto de Rio Maior, do Politécnico de Santarém, angariou mais de mil refeições para estudantes vulneráveis, através da conversão da prática de actividade física em apoio alimentar. O projecto, desenvolvido no âmbito da licenciatura em Atividade Física e Estilos de Vida Saudáveis, permitiu angariar 1.022 refeições e mobilizou cerca de cem participantes, o que corresponde a aproximadamente 10% da comunidade académica da escola, entre estudantes, docentes e funcionários não docentes.
“O movimento humano faz parte de nós enquanto escola de desporto, mas sentimos que era fundamental trabalhar competências sociais e humanas, para além das técnicas”, afirmou à Lusa a docente Susana Alves, coordenadora da iniciativa, explicando que o objectivo foi “treinar a empatia e a sensibilidade social” dos futuros técnicos de exercício.
O projecto estabeleceu uma equivalência direta entre actividade física e solidariedade: por cada 10.000 passos realizados era garantida uma refeição, valor alinhado com as recomendações da Organização Mundial da Saúde para a prática diária de atividade física. No total, foram acumulados mais de quatro milhões de passos. “Utilizámos esse valor de corte porque sabemos que 30 minutos de actividade física ou 10.000 passos têm benefícios claros para a saúde física e mental. Aqui, conseguimos acrescentar uma terceira dimensão, que é a social”, referiu a docente.
A iniciativa contou com o apoio da empresa Recheio, responsável pelas refeições nas cantinas do Politécnico de Santarém, e envolve os Serviços de Ação Social da instituição na identificação dos estudantes que irão beneficiar das refeições. Segundo Susana Alves, o impacto do projecto poderá traduzir-se em diferentes cenários, dependendo da forma como a ajuda será distribuída. “Se concentrarmos as refeições em três meses, podemos apoiar cerca de 20 estudantes. Se alargarmos a distribuição por mais tempo, conseguimos garantir apoio a menos alunos, mas durante praticamente todo o ano letivo”, explicou.
A responsável destacou ainda o envolvimento da comunidade e os efeitos comportamentais registados ao longo dos 10 dias de desafio. “Tivemos muitos testemunhos de estudantes que diziam que não lhes apetecia sair de casa, mas que, por saberem que estavam a ajudar alguém, quebravam essa barreira e acabavam por fazer atividade física”, afirmou.
A criação do "Movimento em Alimento" resulta, segundo Susana Alves, da percepção crescente de situações de fragilidade socioeconómica entre estudantes do ensino superior, algumas delas pouco visíveis. A docente explicou que há alunos que solicitam apoio, mas “muitos outros vivem estas dificuldades em silêncio, muitas vezes por vergonha”, sendo frequente que esses casos cheguem ao conhecimento da escola através dos próprios colegas. Segundo a responsável, existem situações em que estudantes partilham refeições ou alimentos básicos com colegas de casa por estes não terem capacidade económica para fazer compras essenciais, uma realidade que, sublinhou, “não é residual”.
O projecto teve este ano a sua primeira edição, mas a organização pretende torná-lo anual, mantendo o período entre 20 e 30 de Março, depois de uma fase piloto que, segundo a docente, permitiu confirmar que o modelo “funciona e tem potencial para crescer”. O momento simbólico de encerramento da iniciativa está marcado para 6 de Abril, Dia Mundial da Atividade Física, com a entrega das refeições angariadas nas instalações da Escola Superior de Desporto de Rio Maior.


