Comércio local é alma e identidade dos centros das cidades
Há comércio que se confunde com a história e se relaciona com quem vive nos centros urbanos. A propósito do Dia Nacional dos Centros Históricos, O MIRANTE foi ao encontro de lojas em Almeirim, Tomar, Cartaxo e Entroncamento que carregam tradição e cuidam das necessidades e das pessoas.
Conhecida pelos artigos de utilidade doméstica e produtos exclusivos inspirados nos “fenómenos do Entroncamento”, a Casa Carloto é uma das lojas mais emblemáticas do comércio tradicional da cidade ferrovária. Com 43 anos de casa, Fernanda Moleirinho, de 59 anos, é uma das vozes que melhor testemunha a transformação do centro histórico do Entroncamento ao longo das últimas décadas. A funcionária recorda um tempo em que a zona tinha grande movimento e atraía clientes de vários concelhos da região, algo que hoje considera distante, sobretudo com o crescimento das grandes superfícies e, mais recentemente, das compras online. “As pessoas hoje procuram mais conforto, vão para os centros comerciais, onde têm tudo, é climatizado e há espaços para as crianças. Aqui não há essa dinâmica”, explica, referindo que o estacionamento pago acaba também por afastar clientes.
A falta de iniciativas que atraiam pessoas ao centro é outra das críticas de Fernanda Moleirinho, que considera que a cidade tem pouca oferta de eventos capazes de atrair visitantes, além das festas anuais. “Dantes isto tinha muita vida, mas o comércio está cada vez mais parado e isso assusta”, admite. Apesar das dificuldades, a Casa Carloto tenta manter-se relevante apostando naquilo que a distingue: os produtos associados aos “fenómenos do Entroncamento”, imagem de marca que ainda atrai clientes de todo o país. “Somos únicos nesta marca que caracteriza um pouco a nossa cidade e até já são as pessoas que vêm falar connosco de acontecimentos bizarros”, explica.
Na loja Danafi Modas, Eduardo Saraiva, de 74 anos, confirma o mesmo cenário de perda de dinamismo no centro. Dono da loja há mais de três décadas, recorda tempos em que havia muito mais movimento e clientes regulares. “O comércio local era um negócio que não se faz agora. Estamos aqui parados, à espera que venha pelo menos um cliente ou outro”, descreve. Para o comerciante, a mudança começou com o aparecimento das grandes superfícies e agravou-se com o crescimento das compras online, que afastaram sobretudo os mais jovens do comércio local. Apesar das dificuldades, continua de portas abertas, mesmo já reformado, numa tentativa de manter o negócio. “É muito difícil sobreviver”, reconhece.
A proximidade que não se encontra nas grandes superfícies
Em Almeirim, a Ourivesaria Pinhal, com mais de 50 anos de história, dedicação e proximidade com os clientes, nasceu da vontade do pai de Rui Pinhal, actual proprietário da ourivesaria, em dar continuidade ao negócio de família, aberto inicialmente no concelho da Chamusca. Localizada na Rua Condessa da Junqueira, onde se mantém há 51 anos, a ourivesaria está nas mãos da terceira geração da família Pinhal.
A gerir o negócio há uma década, Rui Pinhal diz que “o comércio local está completamente diferente”, no que respeita à evolução dos produtos, marcas e exigências dos clientes. Mas há algo que não muda: a proximidade com os clientes. “Temos clientes que eram pais, depois vieram os filhos e agora vêm os netos”, confessa, sublinhando que o valor humano é o que distingue o comércio local das grandes superfícies. Apesar da concorrência com as grandes superfícies, o proprietário da Ourivesaria Pinhal acredita que o comércio local continua a ter um papel fundamental na dinâmica daquele concelho.
Mais a sul, no Cartaxo, há uma loja onde os moradores sabem que vão parar quando já correram corredores e prateleiras de hipermercados e não encontraram o que procuravam. Entre fechaduras, torneiras e ferragens, no Rui da Custódia os clientes encontram muitas vezes a resposta que precisavam. Atrás do balcão está Gabriela Margarida Custódio, ou Guida, como toda a gente lhe chama, cuja história se confunde com a da própria loja.
Tudo começou em 1969, quando o seu pai abriu uma oficina de carroças naquele mesmo espaço. A oficina foi evoluindo, as carroças deram lugar a peças, as peças a ferragens, e a loja foi crescendo. Fechaduras, torneiras, tubagens, ferramentas, tapetes ao metro, vassouras, pás de pedreiro, tesouras de jardinagem, há de tudo, arrumado com uma lógica que só quem lá trabalha conhece de cor. A Guida não estava destinada à loja. Estudou contabilidade e trabalhou quase 20 anos numa firma ali perto, mas quando a empresa em que trabalhava encerrou e a mãe adoeceu, acabou por atravessar a porta que sempre esteve ali, a mesma onde brincou em criança.
Guida conhece os produtos e as limitações de quem compra, por isso, quando vê que alguém não vai conseguir montar o que comprou, acaba muitas vezes por ser ela a fazê-lo. E se não tiver o que a pessoa precisa, indica onde pode encontrar, mesmo que seja na concorrência. A loja sobreviveu à morte do seu fundador, à pandemia, a crises financeiras, a um inventário obrigatório que fez a vizinhança supor o pior: que a loja ia acabar, como muitas outras, fechada. O negócio foi-se transformando aos poucos, tal como Guida foi aprendendo, em paralelo, quase sem querer. Atende cada cliente como se fosse o único, conhece os nomes de muitos, sabe as histórias e vende fiado aos que são habituais.
Quando se pergunta sobre o futuro da casa, há uma pausa. Tem um filho, ainda novo. Se vai querer continuar o negócio? “Eu também dizia sempre que não vinha para cá”, responde, com um sorriso que diz tudo. Por agora, às dez da manhã, a porta na Rua Batalhoz mantém-se aberta, com clientes a entrar e a sair em busca de uma anilha, de uma fechadura ou apenas de uma solução. Havia uma fechadura numa prateleira que lá estava há 30 anos. Tinha o preço original colado. Este ano, finalmente, foi a solução que alguém procurava.
Comércio local esmorecido em Tomar
José Beirante, natural de Torre do Bispo, Santarém, vive em Tomar há 58 anos, cidade onde tem a sua ourivesaria há quatro décadas. Aos 81 anos, relojoeiro desde os 11 anos por influência do seu irmão mais velho que teve a mesma actividade, José Beirante afirma que quando abriu o negócio, o centro histórico de Tomar era um local com vida e muita actividade comercial. A falência de várias empresas e o êxodo rural para as grandes superfícies, afirma, fez com que o comércio local fosse esmorecendo, levando ao encerramento de vários estabelecimentos comerciais.
Actualmente, a ourivesaria de José Beirante depende dos clientes regulares. O crescimento do sector turístico, segundo o relojoeiro, pouco influencia o seu negócio, dado que estes pouco investem no comércio local, à excepção da restauração e hotelaria. Apesar das dificuldades, o relojoeiro sublinha que não mudaria o local onde reside e trabalha, devido ao conforto que sente no centro histórico, embora considere necessário dinamizar o centro histórico e melhorar acessibilidades.
Dentro do centro histórico de Tomar, encontrámos também Luís Correia. Gestor e proprietário de vários negócios, tem 40 anos, é natural de Tomar e abriu uma loja de artesanato com produtos locais, regionais e nacionais, em 2022. Diz que o fez por “carinho” aos produtos locais e regionais e com o intuito de fornecer algo diferente ao centro histórico templário. A abertura é ainda recente, mas já lhe permite concluir que o centro histórico é pouco dinâmico e a ausência de actividades impacta negativamente o comércio. O sector turístico, no seu caso, é influente, destacando não só os turistas estrangeiros, como os portugueses que visitam a cidade, embora seja sazonal. A pouca acessibilidade e a concorrência por parte das grandes superfícies comerciais são outros factores que entende como negativos. Contudo, reforça, a cidade é bonita e tem bastante potencial de crescimento.


