Falta de médicos e muito tempo de espera nas Unidades Locais de Saúde da região
Estudo traça o primeiro grande retrato das Unidades Locais de Saúde e mostra que a reforma do Serviço Nacional de Saúde criou um modelo mais integrado mas ainda com problemas estruturais importantes. Estuário do Tejo e Médio Tejo estão entre as situações mais críticas, Lezíria destaca-se na gestão financeira.
A implementação das Unidades Locais de Saúde (ULS) revelou fortes desigualdades no acesso a cuidados de saúde, falta de médicos em várias regiões do país e tempos de espera elevados, segundo um estudo publicado este mês pela Entidade Reguladora da Saúde (ERS). O relatório analisou o desempenho das 39 ULS de Portugal continental após a reorganização introduzida em 2023, que integrou centros de saúde, hospitais e cuidados continuados numa única entidade responsável pela prestação de cuidados de saúde a cada região.
Entre as situações mais preocupantes identificadas pelo estudo estão as Unidades Locais de Saúde do Estuário do Tejo e do Médio Tejo, que apresentam alguns dos rácios mais baixos de médicos nos cuidados de saúde primários em todo o país. Segundo a análise da ERS, estas ULS têm menos de 0,5 médicos por mil habitantes, valores abaixo da média nacional (0,73). Os números indicam que o Estuário do Tejo tem cerca de 0,48 médicos por mil habitantes e o Médio Tejo cerca de 0,49 médicos por mil habitantes. Estas unidades combinam baixa dotação médica com populações elevadas, o que resulta em maior pressão sobre os serviços de saúde.
O relatório conclui que todas as ULS com menos de 0,5 médicos por mil habitantes registam mais de 50% das consultas realizadas acima do Tempo Máximo de Resposta Garantido, confirmando a relação entre falta de profissionais e aumento dos tempos de espera dos utentes. Além disso, estas unidades estão também entre as que apresentam níveis baixos simultâneos de médicos e enfermeiros por habitante, o que agrava os problemas de acesso aos cuidados de saúde.
Em contraste com as dificuldades de acesso noutras regiões, a ULS Lezíria destacou-se pelo desempenho financeiro. O estudo revela que esta unidade apresentou um Prazo Médio de Pagamento a fornecedores de 39 dias, abaixo do limite legal de 60 dias e muito inferior à média nacional, que se situou nos 96 dias.
Tempos de espera continuam elevados
Os dados de 2025 mostram ainda incumprimentos relevantes dos tempos máximos de resposta garantidos, tanto em consultas hospitalares como em cirurgias programadas, com algumas unidades a registarem percentagens muito elevadas de doentes fora do tempo recomendado.
A ERS alerta que o acompanhamento dos tempos de espera, a correcção das assimetrias regionais e o reforço de profissionais devem ser prioridades para o futuro do modelo actual das ULS. Segundo a entidade reguladora, estas diferenças entre as ULS reflectem desigualdades na gestão financeira e na sustentabilidade das instituições, podendo ter impacto na relação com fornecedores e na regularidade dos serviços de saúde.
O estudo conclui que o modelo das Unidades Locais de Saúde ainda está numa fase inicial de implementação, sobretudo nas unidades criadas em 2024, mas já apresenta alguns resultados positivos, nomeadamente: melhor articulação entre centros de saúde e hospitais, maior coordenação clínica, partilha de informação entre serviços e simplificação do percurso do utente no sistema de saúde. No entanto, persistem dificuldades, sobretudo a falta de profissionais de saúde, articulação com a Rede Nacional de Cuidados Continuados, contratação de recursos humanos e modelos de financiamento e contratualização não optimizados.
Um país com 1.615 unidades de saúde
O relatório mostra também que o sistema de ULS é muito desigual entre regiões. Em 2025, as ULS integravam: 1.615 unidades de cuidados de saúde primários, 93 hospitais, mais de 31 mil médicos e 44 mil enfermeiros. Em média, cada ULS tem cerca de 41 unidades de cuidados primários e dois hospitais, mas existem unidades muito pequenas e outras com dimensão regional e grandes populações.


