São Romão não desiste da ermida que o padre trancou a sete chaves
Oito anos depois de o padre ter trancado a Ermida de São Romão e tirado as chaves a quem por ela zelava, a população resiste. Mantém-se a revolta e a vontade de voltar a cuidar daquele espaço religioso do concelho de Vila Franca de Xira, degradado e em aparente estado de abandono, mas onde ainda há quem reze à porta e deposite flores e esperança.
Durante décadas, a população de São Romão zelou pela ermida cujo branco das paredes se destacava no cume daquela pequena localidade situada num dos extremos do concelho de Vila Franca de Xira. “A única coisa que dava alegria a esta aldeia pequena era ver este edifício a brilhar ao longe”, lembra Sandra Lopes. Agora, quem olha depara-se com um edifício religioso votado ao abandono, onde ninguém entra desde que o padre da paróquia se apossou, em 2018, das chaves da ermida. Ainda assim há quem reze de joelhos à porta e ali deposite flores e tenha a fé que um dia vai poder voltar a ver aquelas portas abertas. É o caso de Maria Quitéria Santos, que diz ter uma “ligação muito forte a São Romão” que faz com que mesmo naquelas condições, todos os domingos, caminhe pela estrada sinuosa que lhe dá acesso e ali se ajoelhe a orar. “Eu já a vi cá a rezar e é muito triste. Esta capela era a única coisa que tínhamos nesta aldeia”, atira Mário Lopes, a quem também custa ver o edifício religioso “ao abandono, a cair, com telhas tiradas”.
Passaram-se oito anos desde o momento em que Leonor Cabaço, uma das zeladoras da ermida, entregou as chaves ao padre Alfredo Juvandes. O momento, presenciado por O MIRANTE, foi tenso e gerou revolta. Um sentimento que se mantém e que, nalguns casos, se agudizou pelo desprezo a que tem estado votada a capela. Provam-no as dezenas de pessoas, tantas quantas tem a aldeia, que se manifestaram este Março à chuva, junto à ermida. “Estamos aqui porque estamos todos em desacordo com o que foi feito em 2018. Éramos zeladores desta ermida há 60 anos ou mais e de repente, não percebemos porquê, [o padre] levou a chave. Nós queremos que nos permitam zelar por este espaço, nós estamos cá, de corpo e alma, para o fazer”, anuncia Mário Lopes. Ou “se [o padre] quer ficar com a chave tudo bem, mas que zele pelo espaço. Quando o entregámos estava pintado, com portas e janelas novas”, salienta Sandra Lopes, aludindo ao esforço financeiro que muitos fiéis faziam para contribuir para a manutenção da capela.
“Sobreviveu às invasões mas parece que não sobrevive a um padre”
Por esta altura da Páscoa iria começar o rodopio de afazeres para que 43 dias depois, no domingo seguinte à Quinta-Feira da Espiga, a ermida e espaço envolvente estivessem prontos para receber os fiéis visitantes para a tradicional romaria. Este ano, se assim continuar, vai ser mais um em que não se vê vivalma. “Não só as gentes de São Romão, mas em redor, de Arruda [dos Vinhos], das aldeias à volta, todos se lembram da romaria de domingo. Para nós que sempre trabalhámos em prol desta casa - tenho 50 anos e sempre me lembro de vir limpar, pintar, arranjar -, vê-la neste estado dói muito”, lamenta Sandra Lopes.
Para o casal Célia e João Ferreira, a ermida tem um significado particular não fossem eles os protagonistas do último casamento que ali se celebrou, em 1998. Quase três décadas depois, ali estão, abraçados a contemplar o edifício invadidos por um misto de revolta e tristeza. “O ponto de abandono é notório, está-se a degradar de dia para dia. É um choque, uma cicatriz que fica marcada pelos piores motivos. A capela sobreviveu às invasões francesas, às Linhas de Torres, mas parece que não sobrevive a um padre”, atira João Ferreira.
No site oficial do município de Vila Franca de Xira, a ermida é descrita como um “edifício religioso de grande interesse, dado o revestimento interior de rica azulejaria seiscentista, em muito bom estado de conservação”. Destacam-se ainda os “vestígios romanos encontrados no local, tendo sido incorporada uma lápide sepulcral romana numa parede interior”. Um interior cujo estado de conservação suscita sérias dúvidas aos locais. “Não sabemos como está por dentro, porque o coro estava na altura a cair, a precisar de manutenção”, lembra Sandra Lopes. Depois atira, revoltada: “Se é para cair, o padre que diga que é para cair”. Mário intervém: “Não a vamos deixar cair!”. A voz é firme e marca um momento de alento naquela reunião onde, por momentos, os habitantes da aldeia parecem esquecer que sem chaves ou autorização pouco ou nada poderão fazer para “salvar” a ermida.
Padre remete-se ao silêncio
O Patriarcado de Lisboa, “reconhecendo o valor histórico, artístico e espiritual de espaços como a Ermida de São Romão”, diz em resposta ao nosso jornal que “a responsabilidade directa pela gestão pastoral, utilização e eventual reabertura de um templo paroquial cabe ao respectivo pároco, responsável pelo discernimento das condições adequadas para o culto e salvaguarda do espaço”. Mas do padre, Alfredo Juvandes, responsável pela paróquia de São João dos Montes, não conseguimos uma reacção, já que nunca atendeu ou devolveu as chamadas telefónicas, nem respondeu à mensagem deixada. Em 2018, recorde-se, aquando da tomada de posse das chaves tentou demover a jornalista de escrever sobre o assunto, dizendo que estava “proibida” de o fazer.
Sobre a forma de envolvimento da população na conservação da ermida, o Patriarcado diz que também “deverá ser avaliada e determinada pelo pároco da paróquia, a quem compete ponderar as circunstâncias concretas, quer do ponto de vista pastoral, quer das condições de segurança e preservação do património”. O Patriarcado diz-se “disponível para acompanhar a situação e apoiar os responsáveis locais na procura das melhores soluções”.
Numa postura igualmente passiva, a Câmara de Vila Franca de Xira diz ao nosso jornal reconhecer a “relevância histórica e patrimonial da Ermida de São Romão, estando disponível, dentro das suas competências, para apoiar a Paróquia de São João dos Montes”. A autarquia destaca situações passadas, como o furto de azulejos em 2017, intervenções que apoiou em 2006 e 2010 e o apoio que diz ter prestado à paróquia em várias candidaturas a programas de apoio visando a ermida, que nunca tiveram sucesso.


