Sociedade | 10-04-2026 10:00

Famílias de Ourém vivem entre o trauma das tempestades e a esperança na reconstrução

Famílias de Ourém vivem entre o trauma das tempestades e a esperança na reconstrução
Presidente da República esteve na casa de Elsi Silva, em Sorieira, Ourém - foto O MIRANTE

Presidente da República andou pelo distrito de Santarém e ouviu relatos de desespero de quem viu as suas casas e outro património destruídos pelas tempestades e enfrenta dificuldades em reconstruir o que perdeu.

O Presidente da República, António José Seguro, dedicou o segundo dia da sua presidência aberta ao distrito de Santarém, que começou com uma visita à localidade da Sorieira, em Seiça, Ourém, onde entrou numa casa parcialmente destruída pelas tempestades que assolaram o país este Inverno. Ali, entre paredes rachadas e telhas arrancadas, ouviram-se histórias de famílias que, em poucas horas, viram o seu património destruído e continuam a aguardar pela reconstrução das suas casas e também das suas vidas.
Entre a chuva fraca e o céu nublado do dia 7 de Abril, a porta da casa de Elsi Silva abriu-se para receber o Presidente da República. Depois de cumprimentar os presentes, António José Seguro entrou na habitação destruída, guiado pela proprietária. Aos poucos, Elsi Silva, de 42 anos, mãe solteira de dois filhos de 10 e 12 anos, foi reconstruindo o “terror” que viveu naquela noite em que a casa começou a desmoronar-se enquanto dormiam.
“A parede caiu exactamente onde estávamos. Foi um milagre estarmos vivos”, contou, dizendo que apesar de ser natural do Brasil, construiu a vida na Bélgica há 20 anos e investiu todo o suor do seu trabalho na compra e recuperação da casa em Sorieira. “Nos primeiros dias, a gente só chorava, sem saber o que ia acontecer da nossa vida. Perdi 20 anos da minha vida em duas horas”, resume, acrescentando que naquela noite, fugiu com os filhos para o carro e ali permaneceram até amanhecer, rodeados por árvores caídas e destroços. Actualmente, vive com os filhos num apartamento cedido pela Câmara de Ourém, enquanto aguarda resposta aos pedidos de apoio.
Ainda assim, Elsi Silva tem contado com a ajuda da comunidade. “Já ganhei um frigorífico, uma cama e outras coisas básicas. Foram clientes, pessoas da terra, que me ajudaram”, conta, manifestando esperança de que a visibilidade dada pela visita do Chefe de Estado traga respostas concretas e céleres. “Disseram que vão voltar aqui quando isto estiver reconstruído. Isso deu-me alguma confiança”, diz, agarrando-se à expectativa de conseguir reerguer o que perdeu. “Não tenho mais 20 anos de vida, de saúde e de trabalho para voltar a fazer tudo outra vez. O que me resta é a esperança”, conclui.

A casa parecia um barco a abanar
No mesmo local cruzaram-se outras histórias, como a de Maria Neves de Sousa, 67 anos, que foi das primeiras a abordar António José Seguro, emocionada. Em declarações a O MIRANTE, a habitante de 66 anos relatou o medo “aterrador” que sentiu naquela noite. “O meu filho dizia-me ‘mamã não me deixes morrer’ e eu dizia que não o ia deixar”, recorda, relembrando que a casa onde vivia com o marido e o filho ficou sem condições e a família está há dois meses num apartamento provisório cedido também pelo município.
Na noite do incidente dormiram numa casa de banho, entre a sanita e a roupa, tentando proteger-se enquanto a casa parecia “um barco a abanar”, sublinhando Maria Neves de Sousa que tudo ficou inutilizado. Para agravar a situação, o filho enfrenta problemas de saúde graves, o que torna ainda mais urgente o apoio. “Agora está tudo nas mãos de Deus e da câmara”, diz com tristeza no olhar.
Nem todos perderam a casa por completo, mas muitos continuam a viver com danos profundos. É o caso de Mário Duarte e Maria Pereira, de 65 e 66 anos, que regressaram recentemente à sua habitação na Urqueira. O telhado foi arrancado, a água entrou como se fosse chuva dentro de casa e destruiu chão, portas e móveis. “A televisão foi para o lixo e o chão levantou todo com a humidade”, conta Maria Pereira, lamentando que as reparações feitas pela câmara tenham sido apressadas e, na sua opinião, insuficientes. O marido lembra o momento da tempestade como se fosse hoje e um dos mais assustadores que viveu. “Fugi para a rua para não ficar debaixo do telhado. Nunca vi nada assim”, relata, dizendo que apesar de já estarem de volta a casa, admitem que ainda há muito por resolver.

Maria Pereira e Maria Neves de Sousa ficaram desalojadas - foto O MIRANTE
Elsi Silva com os dois filhos. A família ficou desalojada na sequência da tempestade - foto O MIRANTE

Mais de 10 mil casas afectadas em Ourém após tempestade Kristin

Durante a visita a Ourém, o Presidente da República, António José Seguro, deixou palavras de apoio às famílias afectadas pelas tempestades e apelou à esperança, reconhecendo o esforço da câmara municipal no acompanhamento das situações. O Chefe de Estado pediu também mais planeamento dos recursos para responder a catástrofes, considerando que os portugueses são “muito bons no improviso”, mas precisam de melhor organização.
Segundo o presidente da Câmara de Ourém, Luís Albuquerque, a tempestade Kristin deixou mais de 10 mil casas sem telhas no concelho, obrigando ao realojamento de cerca de 300 pessoas. Três habitações ficaram totalmente irrecuperáveis, há ainda dezenas de famílias em situação provisória e foram entregues cerca de 3.500 pedidos de apoio à recuperação, dos quais 500 já foram pagos, estando os restantes em análise.

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