Sociedade | 13-04-2026 15:00

Nas ondas da rádio João Vitalino encontrou o mundo

Nas ondas da rádio João Vitalino encontrou o mundo
João Vitalino passou 70 anos "à escuta" no radioamadorismo, um hobbie que lhe preencheu a vida - foto O MIRANTE

Aos 97 anos, com a mobilidade limitada por um AVC, João Vitalino continua ligado ao mundo através do radioamadorismo. Foi professor, ajudou a fundar a Rádio Ribatejo e fez das ondas curtas uma ponte entre Alcanena, Santarém e os lugares mais improváveis do planeta.

João Vitalino tem 97 anos, a mobilidade e a audição afectadas por um AVC, e um pequeno aparelho de comunicações pousado na mesa de cabeceira. Quando carrega num botão, o sinal atravessa o ar e chega a quem estiver à escuta. É assim há mais de sete décadas. “No radioamadorismo, tudo é uma surpresa”, diz, com a serenidade de quem já viveu o suficiente para saber que o mundo cabe, afinal, numa frequência. Natural de Espinheiro, no concelho de Alcanena, João Vitalino formou-se em Coimbra em 1972 e fez carreira como professor no ensino básico e secundário. Mas a paixão que verdadeiramente lhe moldou a vida nasceu muito antes das salas de aula. Começou em 1945, quando ainda era “um miúdo muito curioso”, fascinado pela electricidade e pelas comunicações.
Entre as muitas histórias que guarda, há uma que conta com especial interesse. Em Agadir, no norte de África, um colapso súbito de edifícios lançou o caos e deixou as comunicações comprometidas. Dois radioamadores, junto ao aeroporto, tentavam em vão estabelecer contacto com França. Foi João Vitalino quem conseguiu fazer a ponte. Durante uma noite inteira, retransmitiu mensagens para o exterior. Não foi caso único. Recorda também o grande apagão que deixou Portugal sem telemóvel, telefone, internet e televisão. Enquanto o país mergulhava no silêncio, os radioamadores do Ribatejo mantinham-se operacionais. João Vitalino foi ainda um dos fundadores do que viria a ser a Rádio Ribatejo. Corria o ano de 1952 quando um capitão de cavalaria, João Galvão Santos, chegou a Santarém com uma ideia e reuniu à sua volta “meia dúzia de gajos”. Na Rua Luís de Camões, passaram noites a fabricar os próprios equipamentos, peça a peça. Quando a estação começou a funcionar, saíam para cobrir a Feira do Ribatejo, corridas de touros e acontecimentos da cidade. Faziam rádio com as mãos, com engenho e com a obsessão dos curiosos.
João Vitalino sublinha que o radioamadorismo não é improviso nem brincadeira. Para obter licença é preciso demonstrar conhecimentos técnicos sobre o espectro radiofónico e provar capacidade para operar sem interferir com outros serviços. Ao longo da vida, as ondas levaram-no a geografias onde nunca pôs os pés. Falou com pescadores no interior do Amazonas, com aldeias indígenas, com japoneses, chineses e árabes. Numas férias da Páscoa, passou horas e dias a conversar com japoneses, criando laços tão fortes que, anos mais tarde, um neto descobriu no Japão que a família era conhecida por lá.
Há episódios de amizade improvável que ainda hoje o comovem. Durante anos comunicou com um americano que trabalhava num estaleiro de submarinos em Arlington. Enviou-lhe gravações de fados. O homem não conhecia aquela música, mas ficou rendido. Um dia avisou que passaria por Lisboa, vindo de navio a caminho de Itália, e manifestou vontade de o conhecer. João Vitalino respondeu que não podia, por estar em serviço de exames. Dias depois, um táxi parou à porta de sua casa, em Alcanhões. O americano tinha deixado a excursão, apanhado um avião e vindo de propósito ao seu encontro.
Noutra ocasião, respondeu-lhe um jovem chinês de 15 anos que estudava refrigeração. Quando João Vitalino lhe perguntou porquê, ouviu uma resposta que nunca esqueceu: “Não tenho capacidade intelectual suficiente para entrar na universidade”. Ficou a pensar naquilo durante muito tempo. Mas para lá das conversas à distância, João Vitalino valoriza uma dimensão menos visível do rádioamadorismo: a função social. Ao longo dos anos viu a comunidade acolher pessoas que a vida empurrou para a margem. Um piloto da TAP que cegou e foi, nas suas palavras, “arrumado numa prateleira”. Um capitão de bacalhoeiro gravemente doente. Um sargento da Marinha. E Neves, oficial dos comandos que ficou cego e sem os dois braços depois de um soldado deixar cair uma granada durante uma instrução. “Nós tratámos dele. É o radioamadorismo”, diz, sem procurar grandeza no gesto.
Aos 97 anos, João Vitalino continua também a pensar no futuro. Acredita que o radioamadorismo devia entrar nas escolas, como ferramenta de aprendizagem e abertura ao mundo. Dá o exemplo do Canadá, onde viu crianças aprenderem geografia e línguas em contacto directo com pessoas de outros países. Quando a conversa termina, volta a carregar no botão do aparelho. O sinal sai, atravessa o ar, e algures alguém poderá estar a escutar. João Vitalino espera. Tem tempo. Tem 70 anos de prática. E sabe, como poucos, que no radioamadorismo tudo pode começar com uma voz do outro lado do mundo.

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