Numa sala de aula de Santarém ouviu-se um alerta que pode salvar vidas
Testemunho de Sónia Luís e explicações clínicas de uma terapeuta da fala marcaram uma sessão na Escola Básica Mem Ramires, em Santarém. No Dia Nacional do Doente com AVC, ficou a mensagem de que reconhecer os sinais e agir rápido pode salvar vidas e reduzir sequelas.
Um AVC pode surgir sem aviso, mudar uma vida em segundos e deixar marcas para sempre. Foi essa a mensagem deixada a 27 de Março na Escola Básica Mem Ramires, em Santarém, numa sessão de sensibilização promovida pelo GAM, onde alunos do 8.º ano ouviram, na primeira pessoa, o testemunho de quem sobreviveu a quatro AVC’s. A iniciativa, integrada na disciplina de Cidadania, ganha especial significado no Dia Nacional do Doente com AVC, assinalado na segunda-feira, 31 de Março, data que pretende alertar para uma das principais causas de morte e incapacidade em Portugal.
A sessão juntou Sónia Luís, sobrevivente de quatro acidentes vasculares cerebrais, e Sara Fidalgo, terapeuta da fala do Hospital Distrital de Santarém. Entre a explicação clínica e o testemunho real, os alunos ficaram a perceber que um AVC não atinge apenas idosos e que pode acontecer a qualquer pessoa, em qualquer fase da vida. Sara Fidalgo explicou o que é um AVC, distinguiu os tipos isquémico e hemorrágico e identificou factores de risco como hipertensão, sedentarismo, doenças cardíacas, tabagismo, consumo de álcool e até a toma de contraceptivos. “Qualquer pessoa pode ter um AVC, até bebés durante a gestação. Em Portugal acontecem cerca de 30 mil casos por ano, o que significa cerca de três por hora”, alertou. Um dos pontos mais destacados foi a importância de reconhecer rapidamente os sinais de alerta. A regra dos “3 F” — fala, face e força — foi apresentada como ferramenta essencial para identificar dificuldades na fala, assimetria facial ou perda de força num braço. Perante estes sinais, a indicação é imediata: ligar 112 sem perder tempo. “O tempo faz toda a diferença, porque existe uma janela em que o tratamento pode reduzir as sequelas”, explicou a terapeuta.
Mas foi o testemunho de Sónia Luís que mais marcou os alunos. Aos 45 anos sofreu o primeiro AVC. Tinha uma vida activa, trabalhava intensamente e nunca imaginou ver a sua rotina destruída de um dia para o outro. “Tudo nos pode ser retirado em segundos”, disse, recordando o momento em que, no terceiro episódio, acordou sem memória e sem reconhecer a própria vida. Hoje, com 50 anos e depois de quatro AVC’s, conta que teve de reaprender quase tudo: falar, andar, escrever e até alimentar-se. “Sabia o que era uma caneta, mas não sabia como usá-la”, relatou. Mais do que as limitações físicas, destacou o abalo psicológico e a perda de identidade. “Somos a mesma pessoa para os outros, mas não somos para nós. Os outros sabem quem somos, mas nós não sabemos nada de nós”, descreveu.
Os alunos participaram com perguntas sobre a gravidade dos episódios, a recuperação e a possibilidade de um AVC acontecer em bebés, mostrando atenção e curiosidade. As respostas reforçaram a ideia de que as sequelas podem ser profundas e que episódios sucessivos tendem a agravar as limitações. Sónia Luís deixou também um aviso sobre a importância de ouvir o corpo e respeitar os limites. Admitiu que, depois dos primeiros AVC, desvalorizou os sinais e manteve o mesmo ritmo de vida. “Achei que estava bem e não quis ver que já não era a mesma pessoa. Se tivesse parado, talvez tivesse evitado o terceiro AVC”, reconheceu. Em declarações a O MIRANTE, explicou que levar este tipo de testemunho às escolas é uma forma de preparar os mais novos para agir e também para serem mais empáticos. “O que queremos é que saibam reconhecer um AVC e ajudar quem precisa. Se saírem daqui com essa mensagem, já valeu a pena”, afirmou.
Também o professor de Cidadania, Bruno Paixão, filho e neto de sobreviventes de AVC, sublinhou a importância de iniciativas deste género. “Não é só quem sofre o AVC que tem de se adaptar. A família e quem está à volta também têm de compreender e aceitar a nova realidade”, frisou.


