Sociedade | 13-04-2026 12:00

Perturbação bipolar é uma doença que continua marcada pelo estigma

Perturbação bipolar é uma doença que continua marcada pelo estigma
Pedro Afonso - foto DR

Psiquiatra Pedro Afonso explica que a perturbação bipolar vai muito além de oscilações de humor e pode ser controlada com diagnóstico precoce, tratamento adequado e maior compreensão da sociedade.

A perturbação bipolar afecta entre 1 a 2% da população mundial e é uma doença psiquiátrica marcada pela alternância entre episódios de humor elevado, conhecidos como mania ou hipomania, e fases depressivas. No âmbito do Dia Mundial da Perturbação Bipolar, assinalado a 30 de Março, O MIRANTE falou com o psiquiatra Pedro Afonso, que exerce no Hospital CUF Santarém, sobre o estigma que ainda envolve a doença, podendo esta ser controlada com acompanhamento adequado.
Nos períodos de mania da doença a pessoa pode apresentar energia excessiva, necessidade reduzida de sono, pensamento acelerado e comportamentos impulsivos, como gastos descontrolados ou decisões irrealistas. Já nas fases depressivas, surgem sentimentos de tristeza profunda, falta de energia, perda de interesse pelas actividades e, nos casos mais graves, pensamentos de morte ou suicídio. “Não se trata de simples mudanças de humor, mas de episódios com impacto clínico bem definido”, sublinha o especialista.
O diagnóstico nem sempre é imediato, uma vez que muitos doentes procuram ajuda apenas durante as fases depressivas. Segundo o psiquiatra, a sobreposição com outras patologias, como depressão ou ansiedade, contribui também para atrasos no diagnóstico, que em alguns casos pode demorar vários anos. A doença surge mais frequentemente entre os 20 e os 30 anos, mas pode manifestar-se em qualquer fase da vida, incluindo na infância e adolescência. “O diagnóstico em crianças e adolescentes é possível e clinicamente relevante, ainda que exija cuidados acrescidos, sendo mais difícil distinguir a patologia de variações comportamentais do desenvolvimento normal”, salienta.
O impacto da perturbação bipolar estende-se a várias dimensões da vida e até pode comprometer o desempenho e a “estabilidade laboral”, além de poder gerar conflitos ou períodos de isolamento nas relações familiares. O especialista alerta ainda para o risco de suicídio, que é 20 a 30 vezes superior ao da população geral, reforçando a importância do diagnóstico precoce e do tratamento adequado. Apesar de não ter cura, a doença pode ser controlada, passando o tratamento, na maioria dos casos, pela combinação de medicação e psicoterapia. O lítio continua a ser uma das principais referências terapêuticas, ajudando a estabilizar o humor e a prevenir recaídas, sendo, segundo Pedro Afonso, “o único fármaco” com efeito comprovado na prevenção do suicídio.
A psicoterapia, por sua vez, desempenha um papel fundamental na compreensão da doença, na identificação de sinais de alerta e na promoção de rotinas saudáveis. O psiquiatra sublinha também que a perturbação ainda está associada a preconceitos e ideias erradas, como a de que resulta de “mau feitio” ou fraqueza de carácter, mas assegura que esta se trata de uma doença com base neurobiológica e forte componente genética, com componente hereditária estimada entre 70 e 90%. “O estigma tem consequências reais. Atrasa diagnósticos, afasta pessoas do tratamento e isola quem já sofre. Uma sociedade mais informada e empática é uma sociedade que salva vidas e que melhora os cuidados a prestar a estes doentes”, vinca Pedro Afonso.

Impactos na vida familiar

Ao longo de décadas de prática clínica, Pedro Afonso acompanhou vários casos desta doença, destacando o de uma doente que segue há cerca de 25 anos e que numa fase inicial teve episódios graves que levaram a vários internamentos e tiveram impacto profundo na vida familiar. “O marido acabou por pedir o divórcio e ficou com a guarda do filho menor. Uma das consequências mais dolorosas desta doença é o que ela pode destruir à sua volta quando não é compreendida nem enfrentada em conjunto”, sublinha, explicando que apesar da paciente estar hoje estabilizada, ainda permanecem marcas emocionais. “Com tratamento e apoio, é possível ter uma vida estável e funcional”, afirma.

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