Contrato com empresa de ex-vereadora cai após onda de críticas em Alcanena
Consultoria de 55 mil euros adjudicada pela Câmara de Alcanena à empresa da ex-vereadora Marlene Carvalho durou poucos dias. Após a polémica gerada entre autarcas, ex-autarcas e população, a empresária decidiu cessar o vínculo com o município, num recuo que expôs fragilidades políticas e éticas no processo.
Após a polémica instalada, a empresa da ex-vereadora Marlene Carvalho decidiu cessar o contrato de consultoria que tinha celebrado recentemente com a Câmara Municipal de Alcanena. A confirmação foi feita a O MIRANTE pelo presidente do município, Rui Anastácio, que disse ter sido informado da decisão no dia 9 de Abril, na sequência da exposição pública e das críticas geradas em torno do caso. Em causa estava um contrato no valor de 55.680 euros, com prazo de execução de 731 dias, formalizado a 27 de Março deste ano por consulta prévia. O serviço destinava-se à consultoria estratégica para implementação e acompanhamento de parcerias de inovação, empreendedorismo e projectos comunitários, no âmbito da estratégia “Alcanena 2.0”.
Apesar do recuo, Rui Anastácio garante que os objectivos do município se mantêm e afirma que o executivo vai estudar uma forma de prosseguir com os serviços de consultoria associados ao projecto. “Vai encontrar-se alguma solução”, afirmou. A celebração do contrato com a empresa Marlene Carvalho, Unipessoal Lda., criada em Janeiro deste ano, foi tornada pública na última reunião de câmara, a 6 de Abril, e motivou de imediato críticas da oposição e de munícipes. Na sessão, o presidente justificou o procedimento com a existência de candidaturas europeias que permitem financiar este tipo de contratação, sublinhando que a autarquia necessita de reforço técnico para acompanhar projectos nas áreas da inovação, empreendedorismo e habitação. O vereador socialista Samuel Frazão não questionou a necessidade de apoio técnico externo, mas criticou a falta de explicação política e estratégica no processo. “A única coisa que nós temos aqui é basicamente a questão legal, quase uma justificação. Não diz mais nada”, apontou.
A resposta de Rui Anastácio acabou por evoluir para uma explicação mais vasta da estratégia municipal, com o autarca a referir que a câmara irá apresentar ao Governo, a 15 de Abril, dois dossiês relacionados com o modelo de gestão da habitação acessível e com o futuro da habitação no concelho, enquadrados em conceitos como co-livings, co-houses e reabilitação de edifícios devolutos. Mas foi no período de intervenção do público que a polémica ganhou escala. O ex-vice-presidente da câmara Alexandre Pires classificou a contratação da empresa da ex-vereadora como “eticamente reprovável”, dizendo sair da reunião com “mágoa” e “tristeza”. Defendeu que a autarquia deve ser “eticamente irrepreensível” e rematou com a máxima: “A mulher de César não basta sê-lo, é preciso parecê-lo”. Rui Anastácio rejeitou qualquer favorecimento e defendeu a escolha feita pelo município com base na competência e disponibilidade da ex-vereadora. “Não é arranjar tachos para ninguém, é ir ao mercado e procurar gente com competência demonstrada e foi o que fizemos”, respondeu, lembrando que em mandatos anteriores o município já tinha recorrido à contratação de ex-autarcas como consultores externos. O MIRANTE recebeu várias mensagens de leitores a contestar a situação, entre elas a de Angelo Lopes, que classificou o caso como “vergonhoso”.


