Sociedade | 21-04-2026 07:00

O papel da EPC de Santarém no 25 de Abril começou a ser gizado numa adega de Aveiras de Cima

O papel da EPC de Santarém no 25 de Abril começou a ser gizado numa adega de Aveiras de Cima

A Escola Prática de Cavalaria de Santarém foi a principal força operacional em acção no dia 25 de Abril de 1974 em Lisboa, no golpe para derrubar a ditadura. Um papel especial que foi preparado durante meses em segredo, após Salgueiro Maia e Correia Bernardo terem aceite o repto lançado num encontro realizado na adega do pai de um jovem oficial, em Aveiras de Cima.

O papel fulcral da Escola Prática de Cavalaria (EPC) de Santarém no golpe militar de 25 de Abril de 1974 começou a ser delineado numa reunião de oficiais das Forças Armadas realizada por altura do São Martinho de 1973 numa adega em Aveiras de Cima, Azambuja, propriedade do pai de um então tenente da EPC. O episódio foi contado pelo coronel Joaquim Correia Bernardo, à época um jovem capitão de Cavalaria que participou nesse encontro, e partilhado durante uma conferência promovida pelo Centro de Investigação Joaquim Veríssimo Serrão, em Santarém.
Nesse encontro em Aveiras de Cima, que se seguiu a outros que vinham sendo realizados pelo recentemente formado Movimento dos Capitães, estavam Correia Bernardo e Salgueiro Maia, oficiais da EPC, bem como Otelo Saraiva de Carvalho e Vasco Lourenço, cérebros do golpe que queriam saber com quem podiam contar quando chegasse a hora. Os oficiais da EPC aceitaram o papel especial que pretendiam atribuir à unidade e, a partir daí, com a conspiração em curso para derrubar a ditadura, foi uma questão de tempo até ser decidida a data. Mas Correia Bernardo reconhece que o termo “revolução” então proferido “não foi uma palavra fácil de se ouvir e de mastigar”.
Pelo meio ainda se registou o abortado golpe das Caldas, a 16 de Março de 1974, uma precipitação assente em “premissas falsas” que constituiu “um grande balde de água fria” para o movimento e podia ter tido consequências mais graves para a operação que aconteceu no mês seguinte, como refere Correia Bernardo. Mas o regime, “fechado sobre si mesmo”, não se apercebeu da preparação do golpe para pôr fim à ditadura que governava há mais de quatro décadas um país “orgulhosamente só”, atolado numa guerra em África, que “não acompanhou os ventos da história e não soube reconhecer os legítimos anseios de outros povos”.
A conspiração na EPC prosseguiu durante meses sem que o novo comando da unidade se apercebesse, com o desafio acrescido de o comandante ter sido substituído em Janeiro por um coronel da “inteira confiança” do regime. “O 25 de Abril não nasceu de geração espontânea”, vincou Correia Bernardo, realçando o “movimento imparável” que foi crescendo como uma bola de neve desde as primeiras reuniões de jovens oficiais - inicialmente promovidas para contestar um decreto governamental considerado injusto e discriminatório para os jovens oficiais formados na Academia Militar, desgastados por sucessivas comissões numa guerra colonial já com uma dúzia de anos.
Na madrugada de 25 de Abril, a coluna da EPC assumiu o papel de principal força militar dos revoltosos para entrar em Lisboa, depois de os páraquedistas de Tancos terem recusado alinhar na operação. “Foram meses de preparação e de esforços redobrados, sem que o comando da EPC tomasse conhecimento dessa azáfama”, referiu Correia Bernardo. E, no final, o plano gizado “roçou quase a perfeição”, concluiu o oficial aposentado residente em Santarém.

Mais Notícias

    A carregar...
    Logo: Mirante TV
    mais vídeos
    mais fotogalerias

    Edição Semanal