Vitorino Santos e a guerra que nunca acabou
Mobilizado à pressa e lançado para o conflito em África, o antigo paraquedista de Abrantes, hoje com 89 anos, carrega memórias demasiado duras para caberem em palavras. Há imagens que ainda o fazem chorar, como revela nesta conversa com O MIRANTE.
Vitorino Santos tinha pouco tempo para pensar quando foi chamado para a guerra. Natural de Abrantes, o antigo paraquedista, hoje com 89 anos, recorda a forma brusca como tudo começou. “Assim que me chamaram, tive apenas 15 minutos para preparar tudo e seguir para o avião”, conta, descrevendo um tempo em que a urgência militar se impunha à despedida da família e à própria consciência do perigo. Ao longo de 12 anos marcados pelos conflitos em Angola, Moçambique e Guiné, a guerra entranhou-se-lhe na memória e no corpo. O quotidiano no terreno era feito de tensão permanente, exigência constante e escassez de meios. “Não havia tempo para fazer nada, tínhamos de estar sempre disponíveis”, recorda a O MIRANTE com emoção. Os primeiros tempos foram, diz, especialmente duros, numa fase em que faltava organização e, muitas vezes, até o essencial para enfrentar o inimigo.
As recordações mais violentas continuam vivas. Há cenários que Vitorino Santos ainda hoje não consegue descrever sem que a voz lhe falhe e os olhos se encham de lágrimas. Ao falar dos companheiros, o antigo combatente não esconde a dureza do que testemunhou. “Muitos dos meus camaradas não aguentaram o que ali viveram”, lamenta, numa referência ao peso psicológico que a guerra deixou em tantos militares. Entre os episódios que mais o marcaram está uma operação na Guiné, durante a tomada de uma posição inimiga fortemente armada, onde os militares portugueses encontraram uma das maiores infraestruturas antiaéreas. Sob fogo cerrado, avançavam a rastejar enquanto as balas lhes passavam por cima da cabeça. Para escapar, procuraram abrigo atrás de um monte de terra, típico dos formigueiros da região. Foi nesse momento que alertou um camarada para se proteger melhor. “Disse-lhe para baixar o rabo para evitar ficar exposto. Ele mexeu-se e uma explosão atingiu-o, ficou sem metade das nádegas”, desabafa. O militar foi assistido de imediato e sobreviveu. A amizade entre os dois ficou selada de forma insólita. “Desde esse dia, até ao seu falecimento, cada vez que nos víamos cumprimentávamo-nos sempre encostando o rabo um no outro”, conta, agora com um sorriso.
Mas nem só os combates o deixaram à beira da morte. Vitorino Santos lembra também um dos episódios mais assustadores da sua vida, quando foi atacado por uma cobra cuspideira. Sofreu queimaduras no rosto, perdeu temporariamente a visão e teve de ser hospitalizado de urgência. “Tive sorte que não fiquei cego, mas precisei de cirurgia imediata. Com a adrenalina do momento ainda tirei uma foto à cobra que hoje guardo em casa”, relata. No regresso a Portugal, manteve-se ligado à causa dos antigos combatentes e viria a presidir ao Núcleo de Abrantes da Liga dos Combatentes. Defende o papel destas instituições no apoio psicológico e social aos militares, num país que, considera, ficou aquém no reconhecimento e acompanhamento de quem regressou da guerra com marcas para a vida. Vitorino Santos sobreviveu ao inferno, mas nunca saiu dele por completo. Há feridas que o tempo não cura e memórias que continuam décadas depois do último disparo.


