Tesouros de valor incalculável que continuam esquecidos na região
Há conventos a cair, castelos entregues ao vandalismo, palácios sem destino e monumentos únicos que muitos habitantes nunca visitaram. No Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, O MIRANTE foi ao encontro de alguns dos espaços patrimoniais mais marcantes da região e encontrou um problema comum: a degradação física anda de mãos dadas com a indiferença colectiva.
Há monumentos que resistem ao tempo, mas não resistem ao esquecimento. Espalhados pela região, alguns dos mais valiosos testemunhos da nossa história continuam subaproveitados, degradados ou simplesmente ignorados por quem vive a escassos quilómetros. Em muitos casos, o problema não está apenas na falta de manutenção ou de investimento público. Está também no afastamento das populações, que deixaram de olhar para este património como herança viva e passaram a tratá-lo como parte da paisagem, algo que sempre ali esteve e que, por isso mesmo, já não desperta atenção.
O Convento de Santa Maria de Almoster é um desses casos. Fundado no século XIII e classificado como monumento nacional desde 1920, continua a impressionar pela sua imponência e peso histórico, mas o estado exterior denuncia anos de desgaste. A secretária da Junta de Freguesia de Almoster, Maria Filomena Lopes, não esconde a preocupação. “Basta olhar e vê-se que está degradado e não é aprazível ao olhar de fora. Isto precisava de uma intervenção a sério”, diz.
Em 2025, o convento recebeu cerca de 680 visitantes, um número que ajuda a perceber a distância entre a importância do monumento e a atenção que lhe é dada. A autarca lamenta que haja pessoas da própria região que nem imaginam que ali existe um património daquela dimensão. Para contrariar essa apatia, a junta tem procurado devolver vida ao espaço através do Festival do Arrepiado, que leva ao largo do convento celebrações religiosas, visitas guiadas e momentos de convívio. Mas a dinamização pontual não resolve o problema de fundo. A reabilitação estrutural continua por fazer e persiste a sensação de que o monumento não é tratado com a centralidade que merece. Como resume Maria Filomena Lopes, “aquilo que está mais perto é por vezes aquilo que menos valorizamos”.
Em Alcanede, o castelo da vila vive uma realidade paralela. O potencial turístico e identitário do espaço esbarra na falta de vigilância e na vulnerabilidade ao vandalismo. O presidente da junta, Manuel Joaquim Vieira, explica que o castelo permanece aberto a visitantes, mas a ausência de guardaria e a interrupção de obras iniciadas há anos deixaram o monumento exposto à degradação. Defende que o espaço poderia ganhar nova vida com a instalação de um núcleo de artesanato e produtos regionais, mas considera urgente travar os actos de vandalismo, nomeadamente com videovigilância, solução que entende dever partir do município, responsável pela gestão do imóvel.
Da parte da Câmara de Santarém, o vice-presidente Emanuel Campos garante que existe uma estratégia de valorização integrada do património, assente na inclusão em roteiros turísticos, na divulgação digital e na criação de novos produtos de mediação cultural. O objectivo, refere, passa também por melhorar condições de conservação e acessibilidade, através de intervenção municipal ou em parceria com outras entidades.
Sinagoga em Tomar desperta menos curiosidade aos turistas nacionais
Em Tomar, o problema assume contornos diferentes. A sinagoga, um dos mais importantes testemunhos da presença judaica em Portugal, é um monumento reconhecido e visitado, mas ainda assim insuficientemente apropriado pela comunidade. Em 2025 recebeu 48.550 visitantes, mas apenas 18.721 eram portugueses. Escondida numa rua discreta do centro histórico, continua a ser, para muitos tomarenses, um património respeitado à distância, mais associado ao olhar do turista do que ao quotidiano da cidade.
O presidente da câmara, Tiago Carrão, reconhece que o desafio está hoje em aproximar a população do espaço, ligando-o a outros núcleos patrimoniais e reforçando o seu papel na vida cultural local. O autarca diz ter em mente a reabilitação do espaço exterior contíguo à sinagoga e admite a necessidade de reforçar recursos humanos na área da cultura. A falta de visitas de estudo ao espaço é, para si, sintomática de uma falha maior. O consumo da cultura, defende, deve ser cultivado desde cedo, cabendo ao município assumir-se como elo entre património e educação.
Palácios em Azambuja à espera de investidores interessados
Mais a sul, no concelho de Azambuja, o cenário repete-se com outros protagonistas. O Palácio de Pina Manique (século XVIII), em Manique do Intendente, está há anos sem utilização e continua à espera de um futuro que não chega. Integrado no programa Revive, o imóvel despertou recentemente interesse junto de empresários portugueses, depois de ter sido apresentado no MIPIM (importante feira do sector imobiliário), em Cannes, segundo revelou a O MIRANTE o vice-presidente da Câmara de Azambuja. Responsável pelo pelouro da Cultura e Turismo, António José Matos lamenta que a degradação avance sem que o município possa intervir, já que o imóvel pertence à Estamo, empresa pública responsável pela gestão do património imobiliário do Estado.
O mesmo acontece com o Palácio das Obras Novas (século XVIII), junto ao rio Tejo, também integrado há anos no Revive. De arquitectura neoclássica e localização singular, rodeada de água e com potencial para projectos ligados ao turismo náutico, restauração, eventos ou retiros, continua sem tradução prática, embora já tenham tido interessados que chegaram a reunir com o município e na Secretaria de Estado do Turismo. “Levamos lá as pessoas, mas depois acabam por desaparecer”, lamenta. António José Matos acredita que tanto este espaço como o palácio, no alto concelho, podem ajudar a alavancar o turismo no concelho, ainda que não funcionem isoladamente como produtos âncora.


